O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em parceria com a Christian AID e apoio da União Europeia, realiza um trabalho de organização e formação com as mulheres ameaçadas pelo Complexo Tapajós para a defesa dos direitos humanos.

Embora as barragens previstas para a região ainda estejam na fase de estudos, seus impactos na vida das comunidades tradicionais já se fazem sentir: o desestímulo para produzir, o medo de ter de mudar para a cidade, a preocupação com a família, a desagregação da comunidade... 

Esses problemas são relatados pelas próprias mulheres, que expressam sua indignação, seus medos, mas também a vontade de lutar e resistir. Confira a seguir alguns depoimentos sobre a realidade dessas mulheres, seus desafios e suas lutas.

Depoimentos

“Com o motivo dessa barragem o pessoal fica na iminência de sair e não quer mais plantar, não quer mais produzir, fica com medo de investir e perder tudo. Muita gente está vendendo terreno. Eu não queria sair daqui. Quando cheguei aqui só tinha umas casinhas na primeira rua, pessoal viva da pesca, da caça, alguns ainda cortavam seringa.”

Josefina Maria das Graças Oliveira, aposentada, moradora há 50 anos da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

 

“Meu maior medo é que eu não me acostumo na cidade. Lá é aquela quentura, é ladrão, trânsito, tudo isso eu tenho medo. Aqui não, aqui eu estou sossegada, mas se sair a barragem vou ter que correr para lá no meio do sufoco. Eu sou filha da beira do rio, não consigo viver sem comer peixe. Aqui o costume é esse. Tem gente que acha sofrida a vida da gente, mas a gente gosta, a tranqüilidade vale muito.”

Tereza Lobo Pereira, horticultora, moradora da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

 


“A gente fica mais preocupada porque é mulher, tem os filhos... Às vezes a gente quer fazer uma benfeitoria na casa e fica pensando se faz ou não, tudo nos preocupa mais. Aqui tem pouco trabalho, mas tem o básico. Não vou dizer que dá pra viver 100%, mas a gente não quer que a barragem venha e leve tudo para o fundo.”

Erlani Azevedo Paiva, dona de casa, moradora da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

 

“As mulheres são as mais atingidas pela barragem, porque o homem qualquer emprego na cidade acha, agora as mulheres pra tudo têm que ter estudo. Não adianta nós sair daqui para ficar arrumando casa dos outros em Itaituba.”

Maila Cirla da Silva, dona de casa, “nascida e se criando” na comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

 

 

 

 

 

 


“Alguns jovens da comunidade estão começando a se despertar, mas muitos ainda não entendem os danos que a barragem vai causar, nossa meta é que os jovens compreendam que isso não vai ser bom para a comunidade, que vamos perder nosso lugar, onde já temos uma história. A juventude vai sofrer se tiver que sair daqui sem nenhum conhecimento, vai acabar caindo no mundo da violência, das drogas.”

Luvia Heidy Soares Lima, estudante, moradora da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

 

 

“A gente sente em sair porque aqui é um paraíso para nós, no tempo de sair vai precisar de médico, psicólogo... Só em saber que a gente vai ter que sair daqui eu choro, minha mãe também, para ela é muito difícil, ela só vai sair se vier a barragem, senão quer morrer aqui.”

Rosa Martins, dona de casa, moradora da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

 

“Vem uns homens de fora e alugam casa aqui na comunidade para trabalhar para as firmas [empresas contratadas pela Eletrobras para fazer as pesquisas da barragem]. Algumas meninas se envolvem com esses homens, tem mulher da comunidade que engravidou, já teve filho, e o homem foi embora, outras acabam indo embora com eles. A gente pergunta: será que pode fazer alguma coisa? Por isso estamos nos organizando, muitos que eram a favor da barragem agora já estão vendo que não é bem assim, estão vendo que não é sozinho que se consegue alguma coisa, que tem que se unir.”

Joilma Joaquina Damasceno de Oliveira, coordenadora da Associação Comunitária dos Pescadores e Moradores de Pimental, comunidade ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós

“Aqui a vida das mulheres é bastante sofrida, pois não tem uma renda, um estudo, a maioria é dona de casa, umas ajudam os esposos na roça, outras são domésticas. Precisava de um projeto que envolvesse essas mulheres para que saíssem mais da cozinha. Hoje os direitos são iguais, mas muitas mulheres ainda não sabem quais os seus direitos.”

Maria Suzete Oliveira Nogueira, professora, moradora da comunidade Pimental, ameaçada pelo complexo hidrelétrico do Tapajós