Águas mercantilizadas de março

Uma série de eventos globais ocorre durante o mês de março. Listo apenas quatro.

Entre 15 e 22 de Março, no México, ocorre o Fórum Mundial da Água, organizado por governos, organismos multilaterais e transnacionais da água. Na verdade, é o Fórum da Oligarquia Internacional da Água. Basta ler a matéria com Michel Camdessus que saiu no Valor Econômico e fizemos circular em nossas listas.

O Brasil estará lá, apresentando nosso Plano Nacional de Recursos Hídricos. Como sempre acontece, ONGs e sociedade civil em geral aproveitam o momento para fazer um “Fórum Paralelo”. Dessa forma, estamos sempre a reboque da agenda do poder econômico e político. Duvido da eficácia dessa estratégia, mas provavelmente também estarei no México para um paralelo do paralelo, sobre o uso da água na agricultura e seu impacto na segurança alimentar.

Em Curitiba acontecem dois eventos de alcance mundial: o 3ª Encontro das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP-3), que acontecerá de 13 a 17 de março, e a 8ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (COP-8), entre os dias 20 e 31. Mais uma vez acontecem eventos paralelos para discutir questões tão candentes, decisivas para o futuro da humanidade, mas que o poder econômico tem o dom de ir jogando no sexto do lixo. Basta ver a lei da exploração de florestas, a lei de biossegurança brasileira, as mudanças que querem fazer nas leis que protegem morros, matas ciliares, etc., sem falar no apoio ostensivo do governo brasileiro ao agro e hidronegócios que devastam sem piedade a Amazônia, o Cerrado brasileiro e rios como São Francisco e o Madeira. Em que pese nosso empenho e boa vontade, o pouco que conseguimos no varejo, o capital, apoiado por políticas oficiais, destrói muitas vezes mais no atacado.

Um quarto e pouco comentado evento: a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, organizado pela FAO, reunindo representantes de 188 países em Porto Alegre. É também um espaço oficial, vai acontecer o paralelo dos movimentos sociais, com alguma presença no evento oficial. A proposta dos movimentos é sempre tentar alavancar a travada reforma agrária brasileira.

Todos esses eventos têm um ponto em comum. Não se pode mais falar em reforma agrária sem falar na água, na biodiversidade e nas florestas. Há uma unidade de fundo entre esses desafios. Por isso, esses eventos, inclusive os oficiais, também nos interessam.