Novo ciclo

Itaituba (PA) está prestes a viver um novo ciclo. Desenvolvimento para que e para quem?

O anúncio da construção do complexo hidrelétrico no Tapajós tem despertado preocupação por parte de alguns que vivem às margens do rio, principalmente aqueles que têm o rio como sua principal fonte de sustentação, como os ribeirinhos, indígenas e outros.

Itaituba poderá crescer e gerar muitos empregos, haja vista que se propaga o grande progresso dessa região com a chegada de grandes empresas. É preciso fazer uma analise crítica da realidade local que estamos inseridos, e antes de tudo fazer um resgate histórico de outros ciclos que já vivemos e o que resultou desse processo, principalmente da questão da garimpagem com todo processo de ocupação desordenada nesta área, que já passou por vários ciclos como o ciclo da borracha, a corrida do ouro e a extração de madeira.

Neste sentido, consequentemente, se criou um espaço de exploração predatória dos recursos naturais que resultou em situações onde sobressaíram as desigualdades sociais: de um lado os grandes grileiros de terra e de outros os agricultores familiares, expondo brutalmente a degradação e a desvalorização, humana tornando a vida no campo e na cidade insustentáveis. 

Dentro deste cenário amazônico de concepções radicais de conservadorismo e desenvolvimentismo a qualquer preço, defendido por alguns grupos empresariais, p município de Itaituba encontra-se com uma população na sua maioria empobrecida, desestimulada e sem perspectiva de futuro. Estou me referindo dos despossuídos, aqueles que não conseguiram ser contemplados na distribuição da riqueza produzida na região.

Sobretudo, já estamos vivenciando um novo ciclo: com a chegada dos grandes projetos de infra-estrutura especificamente das construções de grandes barragens na região. O grande questionamento está em quem vai de fato ser beneficiado com esse “desenvolvimento”. Basta olharmos para Altamira com Belo Monte, Tucurui, Porto Velho, os municípios que vêm enfrentando um grande caos, do ponto de vista social e ambiental.

Nenhuns desses grandes empreendimentos estão sendo exemplo de bem estar social para o povo, pelo contrário quem paga a conta desses grandes projetos é a população mais carente, a exemplo disso é o alto preço da tarifa energética. Segundo o MAB, Movimento dos Atingidos por Barragens, o Pará é o estado que paga a energia mais cara de todo o país e o problema não está nas fontes e sim no modelo energético brasileiro que infelizmente serve a um grupo de capitalistas e grandes multinacionais. 

O que poderá acontecer em Itaituba? A conjuntura do atual aponta para um modelo de desenvolvimento que está imposto com todos esses empreendimentos em função de interesses econômicos onde a ganância e o lucro prevalecem acima de qualquer direito humano. Nota-se que aqui não será diferente, vamos imaginar a cidade de Itaituba com mais 100 mil habitantes que é o que está previsto segundo os estudiosos, vindo em busca de emprego, como se voltássemos ao passado e fossemos viver um grande inchaço populacional, onde a maioria não conseguiria mais uma vez ser contemplada com o tão sonhado “progresso”.

Outro fator que não podemos esquecer é a situação das famílias ribeirinhas, comunidades tradicionais que estão ameaçadas a serem expulsas de suas terras, como é o caso da comunidade de Pimental, que vivem em desespero, sem saber qual futuro lhe espera. Até hoje nenhuma empresa foi lá e disse para onde eles vão e como vão fazer com eles, que dizem que se essa barragem for construída, vai matar a vida deles, e que indenização nenhuma é capaz de pagar suas vidas, por isso resistem!

Por isso, se faz necessária a organização dos povos, através de suas representações no sentido de unificar e somar forças para a resistência aos grandes projetos de morte nesta região, considerando que a principal bandeira de luta seja a defesa da vida e o equilíbrio do meio ambiente com base na melhoria de condições de vida para os povos. 

É nesse sentido que A CPT - Comissão Pastoral da Terra, o MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens o STTR - Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, a Pastoral da Juventude, Terra de Direitos, Comunidades, associações e diversos outros movimentos sociais vem se articulando e fazendo um trabalho de conscientização discutindo junto com a população de Itaituba os impactos socioambientais que essas obras podem ocasionar... 

Não somos contra o desenvolvimento, mas é preciso saber para que e para quem. Se não, ficaremos mas uma vez com as mazelas, assistindo os saqueios de nossos recursos naturais e a destruição do nosso rio TAPAJÓS.