Agronegócio pode estar causando impactos genéticos em crianças da região de Correntina

Professora desconfia que a causa das recentes anomalias genéticas que atingem as crianças da região pode ter sido o uso intensivo de agrotóxicos. Pais trabalham em empresas de monocultura do agronegócio. 

Garota com anomalias físicas (Foto: Arquivo pessoal)

Desde de 2008, o Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Este fato já vem sendo tratado como um problema de saúde pública, pois os efeitos deste abuso estão se tornando cada vez mais visíveis na saúde da população do campo, no meio ambiente e nos consumidores de produtos intoxicados.

Crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos. Um estudo do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que entre 2007 e 2014 foram notificadas em todo o país 2.150 intoxicações somente na faixa etária entre 0 e 14 anos de idade.

Na região de Correntina, oeste da Bahia, local onde o conflito entre pequenos agricultores e o agronegócio é permanente, crianças que nasceram na região apresentam anomalias genéticas provocadas pelo uso intensivo de veneno por parte das grandes empresas.

É o que afirma uma professora da rede pública da região, que com medo de represálias, preferiu não se identificar.

“De um tempo pra cá, começaram a ser mais frequentes os casos de crianças com deformações físicas e mentais. Comecei a investigar e percebi que todas elas são filhas de pais que trabalham nas grandes empresas que dominam o agronegócio na região. Não pode ser uma mera coincidência”, afirma a professora.

Menino de 10 anos, vítima das anomalias genéticas (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo ela, os próprios pais começaram a tomar conhecimento do fato, mas já era tarde demais.

“É triste observar os pais, que por falta de informação acabavam se sujeitando à tarefas em plantações sem o uso de equipamentos de segurança adequados. Quando percebem o impacto causado já é tarde demais”, completa.

Bebê, de 2 anos de idade com problemas de desenvolvimento (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Douglas Barreto, militante do Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB) na região do oeste da Bahia, isso é só mais uma das facetas cruéis que o grande capital, representado pelas grandes multinacionais do agronegócio geram na região.

“Isso é só mais um exemplo da perversidade das grandes empresas. Além disso podemos citar a contaminação direta das nascentes e das áreas preservadas. Estes agrotóxicos acabam indo pra própria água do rio e sendo consumido diretamente pela população urbana e rural”, afirma.

Na contramão deste processo, o movimento vem desenvolvendo iniciativas agroecológicas sustentáveis, por meio de projetos como o PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável), que vem abastecendo a região com alimentos saudáveis, livre de agrotóxicos.

Márcio Trindade, pequeno agricultor beneficiário do PAIS (Foto: MAB)

“Pra gente foi muito importante, tem nos ajudado muito na parte econômica e principalmente na saúde, paramos de plantar e consumir com veneno. Aprendemos muito com o projeto, nos trouxe novas técnicas de plantio que não conhecíamos, afirma Márcio Trindade, uma das pessoas beneficiadas pelo projeto.