Atingidinhos protagonizam encerramento do 8º Encontro Nacional do MAB

As crianças atingidas por barragens protagonizam o encerramento do 8º Encontro Nacional do MAB na manhã desta quinta-feira (5), em um momento de muita mística, compromisso e apontamentos. As mais de 200 crianças emocionaram os quase 4 mil participantes. Com suas palavras de ordem, exigiram que Temer nunca mais governe e denunciaram o crime de Marina. Por meio do teatro e brincadeiras, contam a história dos lutadores do povo. E assumem para si e fazem uma chamado ao Movimento como um todo para a luta pela preservação ambiental, contra as privatizações, em defesa dos direitos da classe trabalhadora.

A Ciranda é um espaço de fundamental importância pois fortalece a participação dos pais nas atividades da organização, principalmente das mães. Para as crianças representa os primeiros passos de um processo de debates e formulações que o Movimento quer levar adiante para superar as violações aos direitos das crianças e adolescentes atingidas e atingidos por barragens, por meio da prática pedagógica libertadora.

Mikaeli Nascimento de Jesus, 9 anos, ameaçada pelas barragens do Tapajós em Itaituba (PA), conta porque gosta de vir para Cirando MAB: “a gente constrói nosso próprios brinquedos com matérias reciclado como papelão e plástico, porque os educadores eles sempre ensinam a gente, aí a gente consegue fazer em casa também e ensinar para as outras crianças”. A comunidade onde a Mikaeli vive tem mais de 800 pessoas ameaçada pela construção da barragem. “A minha vó sempre diz que se a barragem for construída, a água vai inundar tudo, vai cobrir as cidades até a torre e as pessoas vão precisar sair de lá para outra cidade onde a gente não sabe. Por isso a gente vem para o Movimento, para lutar”, explica ela.

Por sua vez, Anderson Barros de Oliveira, 8 anos, atingido pela barragem de Belo Monte em Altamira (PA), conta como veio para o Encontro: “quem me trouxe foi minha mãe e eu gosto muito de vir para Ciranda por que é legal, a gente joga bola em equipe, faz brinquedos com material reciclado, o brinquedo que eu fiz a gente sacode e faz barulho, estar aqui é muito legal”. Anderson tem mais dois irmão que estão na Ciranda e demais familiares no Encontro. Segundo ele, “a mãe sempre disse que quando a barragem fosse construída nós tinha que ir embora e quando ela ficou pronta, a gente foi para o Assentamento Jatobá, lá tem escola, tem casa, a gente planta cheiro verde, cebola e pimentão depois a gente come e vende lá em casa mesmo, vem muita gente. Ela fala que a gente tem tudo isso por causa da luta, por isso quando tem marcha a gente vai”.

Lorena da Silva de Souza, 10 anos, ameaçada pela barragem no Rio Guapiaçu, no município de Cachoeira Macacu (RJ), vive pela primeira a experiência de participar de uma grande Ciranda. Ela contou da sua experiência em visitar Mariana: “a gente foi numa van, e lá a gente viu muitas coisas, pessoas triste por causa do desastre, porquê elas perderam tudo, a casa, algumas pessoas da comunidade perderam a vida”. Segunda ela, na ciranda as crianças atingidas sempre aprendem muitas coisas, algumas que ainda desconheciam. “Agorinha mesmo eu aprendi sobre a Dandara na contação de história, ela foi uma guerreira, casada com do Zumbi dos Palmares, teve três filhos e os coronéis perseguiam o povo dela” conta a Lorena encantada com o que acara de aprender.

Já Rafael Fernandes Carvalho, 12 anos, atingido pela Barragem de Uruaçu em Goiás, está participando pela primeira vez da Ciranda do MAB, porque segundo ele, faz pouco tempo que sua família é atingida e todos estão no Encontro. “Estou gostando muito da Ciranda porque a gente aprende umas coisas bem legais, diferentes da que faço em Uruaçu”, conta ele. Rafael ainda falou da organicidade que a Ciranda do MAB adotou, “dessa forma em grupos e por idade, fica tudo mais organizado e todos conseguem participar das atividades”, avalia ele.

Por sua vez, Dandara Maranho Andreoli é uma das tantas crianças que já nasceu na luta, pois seus pais já eram militantes do Movimento, atingidos pela Barragem de Itá em Santa Catarina. Segundo ela, “a importância da Ciranda para o MAB é conscientizar as crianças, não é só como um espaço para as crianças ficar enquanto os pais estão na reunião ou nos encontros, mas para falar sobre o Movimento, cuidar da sua formação para que quando elas foram grandes ela também sejam militantes do MAB, para se organizar e fazer a luta”, explica ela. Ainda bem jovem, Dandara já compreende o que está ocorrendo a suam volta, “essas empresas tem construído cada vez mais barragens para ganhar mais dinheiro, a energia produzida no Brasil vai boa parte para as grandes empresas e para o exterior, ou seja, o Brasil não se desenvolve e isso não é bom para população porque a natureza, os recursos naturais são do povo brasileiro”. Quando questionada sobre o papel da mídia burguesa, Dandara nem pensa muito e responde: “ela tira o direito das pessoas, ela deixa as pessoas cegas, surdas e sem voz, e o movimento faz que as pessoas tenha força para se levar e lutar por seus direito”.

De todas as crianças com quem conversamos, além das que contam um pouquinho da sua história e experiências na Ciranda e no Movimento, todas elas querem contribuir na organização, em especial na Ciranda porque sem ela o Movimento não anda.

“É por essas razões que o MAB entende que as crianças são as sementes do novo mundo, são os construtores de uma sociedade mais justa e igualitária, e esse futuro se constrói no presente, na prática aqui e agora, por isso desde cedo são sujeitos na luta”, como explica Jéssica Feiteiro Portugal, a coordenadora da Ciranda Infantil no 8º Encontro Nacional do MAB. A Ciranda do Movimento expressa a pureza e a beleza dos nossos sonhos, da nossa utopia, assim como, move a esperança na luta pelo Socialismo.

Apoio

Para viabilizar o Encontro, que teve como foco central a luta pela soberania nacional, milhares de famílias atingidas se auto-organizaram e realizaram doações mensais em todo o país. Além disso, o MAB contou com o apoio de diversas estatais, incluindo a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que também tem enfrentado as políticas privatizantes de Michel Temer.