Atingidos e Diocese de Governador Valadares falam sobre o crime ambiental da Samarco após um ano

Da página Terra Sem Males

Fotos: Joka Madruga

Na manhã de quinta-feira (27), em Governador Valadares-MG, militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e representantes da Diocese de Governador Valares concederam uma entrevista coletiva sobre um ano do maior crime ambiental do Brasil, que foi o rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco, empresa das mineradoras Vale e BHP-Billiton. A lama dos rejeitos minerais passaram por três rios (Gualaxo do Norte, Rio do Carmo e Rio Doce) e causou um profundo impacto ambiental e social em toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce.

Foram 20 mortes, contando com o feto que foi abortado durante a enxurrada da lama. Além das pessoas que tiveram suas vidas ceifadas precocemente, também foram assassinados animais silvestres, domésticos e a flora local. As consequências também se alastram por toda a extensão da bacia do rio. E após um ano que se passou percebe-se que pouco foi feito, além da empresa Samarco distribuir um cartão de benefícios para alguns.

Análises de qualidade

Há muita confusão sobre a qualidade atual da água do Rio Doce. Por um lado, a Samarco apresenta laudos que dizem que ela está apta para consumo humano. De outro, entidades independentes dizem que não. Isto gera insegurança e dúvidas na população, que tem um gasto a mais no orçamento com água mineral. Em algumas localidades, a construção de poços artesianos sem fiscalização, feitos no desespero, pode comprometer o lençol freático na região.

Reassentamento

Os moradores de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Barra Longa ainda aguardam suas novas moradias. A empresa apresentou um cronograma onde as vítimas só serão reassentadas em 2019. “Isto é um absurdo, porque as famílias estão sofrendo um abalo psicológico, emocional e de relações de convivência, principalmente em Mariana, bastante críticos”, denuncia Joceli Andriolli do MAB. “Estão culpando os atingidos, como se eles fossem quebrar a empresa ao lutarem por seus direitos”, desabafa Joceli.

Problemas sociais

Segundo o MAB, tem aumentado o uso de drogas, o alcoolismo e a violência, especialmente na cidade de Mariana. “Temos constatados vários problemas psicológicos e de saúde em toda a região. Principalmente doenças de pele”, relata Andriolli.

Pescadores

Outro problema apresentado foi com relação aos pescadores. Tanto os do oceano, como os do Rio Doce. Até o momento não foi apresentada uma solução séria para eles. São mais de sete mil famílias de pescadores atingidas. Muitos deles não terão de volta sua profissão, o que gera um enorme impacto cultural.

Governos

O movimento considera uma vergonha o Governo Federal e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo terem feito um acordo com as empresas Vale, BHP e Samarco, sem a participação dos atingidos e da sociedade civil organizada. E terem estipulado um valor (R$20 bi) pelo crime cometido, pois estabelece critérios e conceitos que restringem direitos do povo. Este valor é questionado pelo Ministério Público Federal.

Direitos Humanos

O MAB aponta que existe um padrão na violação dos direitos humanos dos atingidos por barragens. Pois não tem um marco legal que garanta os direitos deles. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais existe um projeto de lei para regulamentar esta situação, mas está engavetado na Comissão de Constituição e Justiça. As mineradoras, que financiaram a campanha de alguns deputados, são contra este projeto.

Participação da Igreja

Padre Nelito Dornelas falou em nome do bispo Dom Antonio Carlos Félix. Ele ressaltou que o papel da Igreja é a evangelização e que isto envolve muitas coisas, inclusive as questões sociais. “A preocupação da Igreja com a Bacia do Rio Doce já vinha antes do crime ambiental. Tanto que a província Eclesiástica de Mariana já havia criado uma comissão de meio ambiente, no inicio de 2015, para discutir os problemas que a mineração trazem para a região”, explica Padre Nelito.

01 ano do crime da Samarco

O MAB, junto com outras entidades e sindicatos, realizarão algumas atividades para lembrar o maior crime ambiental do Brasil. Acontecerá uma marcha de Regência/ES até Mariana/MG com os atingidos pela lama entre os dias 31/10 e 02/11. Em Mariana, um seminário irá debater as causas do crime e os andamentos em busca de justiça nos dias 03 e 04/11. E no dia 05/11, data que celebra um ano do rompimento da barragem de Fundão, haverá um protesto no local onde era o distrito de Bento Rodrigues.