O caseiro, a ordem de despejo e outras agressões ao Direito Humano

por Antonio Claret*

A militante acompanha atenta a fala do caseiro, no dia 4 de abril, recuperada do susto com o cachorro que, por sorte, estava preso a uma corda. Além de cuidar da fazenda, e ter o seu salário, o caseiro cultiva a terra e consegue uma complementação de renda na fazenda comprada pela Samarco para construir barragem de rejeito de 70 metros de altura, a 4 km acima de Santana do Deserto. Perto de sessenta famílias que moram no povoado. Uma completa insensatez! Há oito anos ele habita ali. No dia da visita, estava desmontando seus móveis, com os dias contados. A área foi comprada por mais de 3 milhões e o caseiro ficou ‘vendido’, recebendo uma intimação com ordem para deixar o local até o dia 29 de abril. O documento está em nome do fazendeiro, mas não há dúvida de que ele atende interesse articulado pela empresa. Além da perda do salário, da complementação de renda e a insegurança por não ter para onde ir, o caseiro confessa sua dor por sua companheira ter sofrido aborto em consequência desses aborrecimentos.

A indignação da militante cresce com o que vê na estrada, a nítida diferença entre o trecho até o muro da barragem de Candonga e o outro trecho até Santana do Deserto. A razão é simples! A empresa precisa transitar, prioritariamente, até o muro da barragem. Então até ali as curvas são largas e o caminhão pipa passa, pra lá e pra cá, molhando, a ponto de quase dar barro. Do muro até o Distrito é poeira. Caminhonetas da empresa passam, constantemente, aí também, mas têm ar condicionado.

A estrada era do povo, mas hoje, literalmente, foi sequestrada pelas empresas. Elas controlam o trânsito, abrindo e fechando quando bem entendem. Militantes do MAB ficam quase vinte minutos parados, sob o sol quente. E o grande fluxo de veículos pesados impõe um perigo constante ao povo, que se locomove no ônibus escolar, carro pequeno, moto, ou mesmo charrete ou cavalo.

A condição da estrada, particularmente o trecho empoeirado, mostra bem o trato que as empresas dispensam ao povo. Em qualquer circunstância, ele é para ser explorado ou um obstáculo a ser removido do caminho. Santana do Deserto, a jusante do muro de Candonga, não foi reconhecida como atingida pela barragem apesar dos claros impactos. Agora, no crime da Samarco, a mesma história se repete.

Os casos são muitos e variados. As famílias vão contando no trabalho de base. O casal, primeira visita, oferece café com rosquinha caseira e, junto, quase chora o rio morto. Vermelho feito sangue. A presidenta da associação, que está em atividade coletiva, diz, através da grade, que as empresas não ‘ajudam’ em nada. O garimpeiro se mostra impotente frente à força do capital, e não vê saída. Um homem abre restaurante e aproveita o movimento do crime, vendendo comida, ganhando um dinheirinho. A mãe de uma militante serve almoço aos visitantes, arroz com feijão, chuchu e ovo caipira, uma delícia, enquanto comenta das muitas famílias excluídas do cartão. Uma senhora, com a sala cheia de gente, fala dos desafios da organização do povo. Antigo membro do MAB, que faz pequena reforma por conta própria em sua casa, diz dos vários crimes das empresas. ‘Lutamos muito e ficamos no prejuízo’, desabafa.

Na volta, de Santana do Deserto para Rio Doce, a militante repara os cortes nos morros, as grandes montanhas roídas pelas máquinas, e se pergunta: ‘será que a empresa está reparando a degradação ou está degradando ainda mais?’. E pede para parar o carro, num local e noutro, louca para fazer qualquer coisa, de tanta indignação. E tira fotos. O guindaste, de tão pontudo e alto, parece que vai furar o céu. A barragem se transforma em várias barragens menores, chamadas diques. Difícil crer que tudo isso é, mesmo, para reparar o crime. A militante tem razão. Tudo indica que a única coisa que move as empresas criminosas é se habilitarem para retomar a exploração mineral na região de Fundão e reativar Candonga, dois empreendimentos, duas minas de ouro.

 

*Militante do MAB na Zona da Mata de Minas Gerais