Comunidades ribeirinhas de Porto Velho vivem drama cotidiano do abandono e desinformação

Desde a cheia histórica do rio Madeira em 2014, ocasião na qual milhares de pessoas ficaram desabrigadas e perderam pertences e casas, a vida dos ribeirinhos da região do baixo rio Madeira segue entre a tensão de um cotidiano degradado e o medo de uma nova ameaça.

Com a região à jusante negligenciada nos relatórios de impacto ambiental da construção das barragens de Santo Antônio e Jirau, os destrutivos impactos sobre os modos de vida tradicionais dos moradores do baixo rio Madeira seguem impunes.

O caso do distrito de São Carlos é emblemático. Ao baixar das águas, ainda em 2014, a prefeitura de Porto Velho junto ao governo do estado prometeu aos moradores de São Carlos a aquisição de uma nova área para a construção da Nova São Carlos, livre dos novos riscos de inundações agravadas. As promessas vieram acompanhadas de amedrontamentos acerca do risco que voltar a São Carlos oferecia – dizia-se que toda a água e o solo estavam contaminados –, e a Defesa Civil orientava os ribeirinhos a não retornarem às suas casas, mas não apresentava alternativas para resolver a situação.

De lá para cá, pouco ou nada mudou. Em meados de 2017 a prefeitura de Porto Velho fez uma força tarefa de limpeza na comunidade, basicamente para auxiliar na poda das gramíneas. O prefeito esteve presente. Nada a dizer sobre a Nova São Carlos, tampouco sobre os riscos atuais de São Carlos. Agora em janeiro de 2018 o prefeito esteve novamente na comunidade junto à Defesa Civil para comunicar aos moradores que não há risco de uma nova inundação como a de 2014.

Os cidadãos de Porto Velho atingidos pelas barragens estão clamando por transparência e informação! O distrito de São Carlos precisa de assistência para fortalecer os serviços públicos da comunidade, que atendem uma ampla região do baixo Madeira. Mas recursos novos não têm sido alocados em São Carlos por justificativa de que se trata de uma área de risco.

Até hoje há destroços e casas abandonas na comunidade em decorrência da inundação de 2014.

Os moradores precisam ser contemplados nos processo de realocação e indenização da Usina de Santo Antônio. Caso não, é dever do poder público fornecer os esclarecimentos e condicionantes para a vida da comunidade não se manter no drama e abandono no qual se encontra. O povo ribeirinho tem o direito de saber sobre os parâmetros que estão mediando as tomadas de decisões para suas vidas, e serem ouvidos no processo.

Em São Carlos é comum se ouvir que a cheia de 2014 não causou mortes humanas... mas somente naquele momento! Pois, até hoje, o modo como suas consequências são tratadas pelas usinas e pelo poder público vêm deprimindo e matando, simbólica e fisiologicamente, esses habitantes da floresta.

 

Prof. Diógenes Valdanha Neto

Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)