Contra o crime que se renova, atingidos celebram com fé a luta pelos direitos

Dois anos depois do rompimento, moradores de Barra Longa se reúnem para fazer memória dos que morreram no crime da Samarco e buscar forças para fazer a luta pelos direitos


Na manhã deste domingo, 5 de novembro de 2017, homens, mulheres e crianças celebraram com fé e esperança a luta por respeito, direitos e dignidade. São dois anos do rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco Mineração S.A, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton, as maiores mineradoras globais do minério de ferro.

Os cerca de 40 bilhões de litros de lama derramados da barragem provocaram 19 mortes, um aborto forçado, além de contaminar mais de 620 km de cursos d`gua no córrego Santarém e nos rios Gualaxo do Norte, Carmo e em 100% do rio Doce.

Como forma de fazer a memória dos mortos pelo crime e buscar forças para refazer a esperança, os atingidos pela Samarco na cidade de Barra Longa, organizados no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em parceria com a Arquidiocese de Mariana, realizam uma programação que celebra a fé e a organização popular.

Apesar de começarem mais um dia sem abastecimento de água em todas as casas, problema que enfrentam diariamente por inoperância das mineradoras, às 8 horas da manhã deste domingo famílias que esperam o reassentamento e a reconstrução dos espaços coletivos em Gesteira, povoado destruído pela Samarco, se reuniram para celebrar nas ruínas próximas a igreja Nossa Senhora da Conceição. Foi feita uma missa que fez ação de graças, mas também reafirmou a luta pelos direitos, única forma de garantir a reparação completa dos impactos do rompimento.

Na comunidade, são 20 famílias ou 61 pessoas que estão espalhadas entre Mariana, Acaiaca, Barra Longa e o povoado de Gesteira que vivem na incerteza, apesar do terreno Macacos ter sido escolhido em 25 de junho de 2016. Dois anos depois, nenhuma resolução para a compra do terreno tão pouco para o início das obras que também envolvem reconstrução de igreja, salão comunitário e campo de futebol.

“Estamos aqui reunidos hoje para protestar diante dos atrasos, da longa espera por alguma resposta definitiva, por prazos verdadeiros, por ações eficazes, pelas indenizações justas negadas, pelo reassentamento prometido e não realizado. Nem um simples poço de água furado há quase um ano a Samarco conseguiu fazer funcionar”, denuncia Maria das Graças, moradora da comunidade e militante do MAB.

Também participaram da celebração em Gesteira atingidos pela Samarco de outras regiões da bacia do rio Doce, especialmente dos municípios do Vale do Aço e das cidades de Resplendor e Aimorés, no Leste de Minas Gerais.

Fé e indignação na igreja centenária

Às 10h da manhã outra celebração, agora na área urbana de Barra Longa, reuniu na Matriz de São José atingidos que viram sua pequena cidade ser destruída pela Samarco.

Foram 5 casas destruídas dentro da cidade, 210 quintais atingidos pela lama, 100 casas que precisaram de reformas. Agora, após os trabalhos de reconstrução que antecederam o aniversário de um ano do crime, a cidade convive com a sucessão incontável de erros de arquitetura e engenharia em todas as frentes de intervenção, tanto que a Fundação Renova vai recomeçar parte das obras em 2018.

Como parte das reivindicações dos atingidos, a assessoria técnica da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS) está priorizando estudos independentes para indicar as razões, conseqüências e o que será necessário para reparar as centenas de casas ainda danificadas por causa do rompimento e do canteiro de obras instalado na cidade.

Em Barra Longa, já está sendo implementado o Programa de Indenização Mediada (PIM) com foco nos danos materiais e morais que se reafirma como um instrumento autoritário das mineradoras para impor sua proposta de indenização final forçando a total individualização dos processos e disseminando a desconfiança.

As pessoas que se dirigem ao escritório são motivadas a manter em confidencialidade tudo o que for discutido multiplicando a desinformação geral sobre critérios e parâmetros. Os valores apresentados são irrisórios. Por exemplo, 16 mil reais de dano moral em alguns casos para comerciantes.

“O cartão subsistência está sendo descontado do valor final, bem como tudo que a empresa fez como reposição de perdas e reformas de casas. As empresas aceleram o processo indenizatório final porque quer obrigar os atingidos a aceitarem valores irrisórios assinando cláusulas abusivas em que eles abrem mão de reparações por danos futuros”, denuncia Odete Cassiano, atingida e militante do MAB na cidade.

A missa na matriz celebrou toda esta indignação buscando reunir esperança e fé na luta pelos direitos. Nas duas celebrações foram lidos o Manifesto dos Atingidos pela Samarco escrito especialmente pela passagem dos 2 anos, e a Declaração dos Bispos das dioceses da bacia Hidrográfica do Rio Doce, que analisa e denuncia o crime e conclama o povo para a luta e organização.

A programação organizada pelos atingidos continua com a manifestação que vai se concentrar às 16h no Centro de Convenções, em Mariana, e que depois segue em caminhada em direção a Igreja Nossa Senhora do Carmo onde haverá missa presidida por Dom Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana.

Na ocasião, também estarão presentes atingidos de Bento Rodrigues, que fará sua celebra às 13h, e de Paracatu de Baixo que realizará sua missa às 14h.