“Corremos o risco de viver a maldição do petróleo”, afirma Gabrielli

Ex-presidente da Petrobras alerta sobre riscos da política adotada por governo Temer de exportar petróleo cru e retirar investimentos das refinarias; pesquisador participa de seminário organizado pela Plataforma da Energia, em São Paulo

Na manhã deste sábado (26), o ex-presidente da Petrobras [2005-2012] e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), José Sergio Gabrielli, participou da abertura da segunda etapa de formação da Plataforma Operária e Camponesa da Energia, que ocorre na Casa do Professor, pertencente ao Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), localizada no Centro de São Paulo (SP).

Criada em 2010, a Plataforma reúne trabalhadores da educação, estudantes, petroleiros, eletricitários, metalúrgicos, camponeses e atingidos por barragens com o objetivo de debater, formular e construir políticas para o setor energético brasileiro.

Neste seminário, Gabrielli foi convidado a apresentar os principais elementos da geopolítica de petróleo para cerca de 70 pessoas de diversas organizações do estado e, principalmente, como eles afetam diretamente a vida da população brasileira.

No início de sua explanação, o pesquisador fez uma retomada histórica para afirmar que existem duas disputas que perduram desde os primórdios da indústria do petróleo. “A primeira é a disputa entre o Estado e o capital privado. E a segunda é a disputa geopolítica, já que a indústria do petróleo já surge globalizada”, pontua Gabrielli.

 Um exemplo que agrega essas duas características é o caso da derrubada do governo iraniano. Em 1953, mesmo ano da criação da Petrobras, o Irã estatizou uma empresa inglesa chamada Anglo-iranian. Entretanto, em poucos meses, uma operação articulada entre a CIA e M-16, serviços secretos de segurança norte-americano e inglês, derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh.

“O primeiro-ministro caiu devido à difusão pela mídia, que naquele período era representada pelos sacerdotes, que havia corrupção na empresa petroleira recém-estatizada. Podemos ver que a disputa que ocorre atualmente no Brasil não é inédita na história”, explica Gabrielli.

Doença holandesa

Nos anos de 1960, uma escalada nos preços do gás acarretou um aumento das exportações dos Países Baixos, que inclui a Holanda, e a valorização da moeda. Entretanto, isso gerou uma perda de competitividade dos produtos manufaturados desses países no mercado internacional. A partir desse episódio, surge a expressão “doença holandesa”, que se remete ao risco de desindustrialização de países exportadores de matéria-prima.

Para o ex-presidente da Petrobras, esse risco é iminente no Brasil. Com a retomada dos leilões da Petrobras e o aumento exponencial da produção de petróleo, o país vive o risco de viver uma crise no setor industrial, o que pode ocasionar mais desemprego nos próximos anos.

“Com a política atual imposta pelo governo Temer, o petróleo será exportado sem refino. Isto afetará a taxa de câmbio, o que é terrível pra indústria nacional porque ela perde competitividade. Portanto, nós vamos viver um deserto em volta do oásis petrolífero. Corremos o risco de viver a maldição do petróleo”, opina Gabrielli.

Neste ano, estão previsto sete leilões de petróleo, que podem ser arrematados por empresas estrangeiras. Para o pesquisador, esta é uma opção do governo federal para ampliar a produção de petróleo e, com isso, suprir a demanda dos Estados Unidos, que viverá um déficit a partir de 2020. Essa política afetará diretamente setores da indústria nacional.

“Nesta velocidade de exploração do petróleo, será impossível que os estaleiros brasileiros façam as plataformas, os estaleiros e as sondas. Ou seja, vamos abrir nossa indústria para empresas internacionais e diminuir o conteúdo nacional que havia sido implantado durante o governo Lula”, esclarece Gabrielli.

Formação

Esta segunda etapa de formação da Plataforma da Energia vai até amanhã (27), e ocorre paralelamente em outros estados brasileiros. A intenção é reunir os participantes de todas as turmas no dia 3 de outubro, no Rio de Janeiro, quando ocorrerá um ato unificado no dia do aniversário de 64 anos da Petrobras.