Cultura e resistência estão na mesa do MAB

Foto: Pedro Tucum

Texto: Luciane Godinho

Dezenove estados brasileiros estão representados no 8º Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), reunindo cerca de 4 mil, entre atingidos e militantes de entidades parceiras. Na bagagem, descarregada desde domingo (1) no Terreirão do Samba, no Rio de Janeiro (RJ), está a produção local de diferentes regiões, desde produtos cultivados e beneficiados por cooperativas, como o arroz orgânico, do MST/RS, ou o arroz de terra, pilado artesanalmente por famílias do Piauí. Ainda, este grande encontro propicia que mulheres exponham produtos artesanais.

Dona Maria Augusto Oliveira, 53 anos, de Porto Velho (RO), trouxe na mala salgadinhos caseiros, biscoito de tucumã, doce de cupuaçu, óleo de babaçu e outros. “O babaçu é um coco comprido, a gente quebra e há uma entrecasca que é uma massa”, explica Maria. Da massa, elas produzem biscoitos, além do óleo das castanhas que a fruta produz. Ela participa do MAB há três anos e é a primeira vez que participa do Encontro Nacional. O Movimento foi criado dentro do assentamento, no qual vive.

Rapaduras de amendoim e coco, mel de cana, cachaça são expostos por Eudite Oliveira, 35 anos, que trouxe o filho Davi, de três, para o evento. Ela é uma das moradoras de Indaiabira (MG), que faz resistência contra a barragem de Berizal, que está em projeto. “O povo já desmanchou uma estrutura que iniciaram”, conta. “Se este projeto sai, estamos ferrados, porque mexe com a vida de muita gente”.

Foto: Vanessa Passos

A produção de subsistência dos militantes do MAB também está na cozinha do acampamento dos militantes do Paraná – alface, beterraba, cenoura, chicória, acelga, feijão, laranja, banana, pães, cucas, doce de abóbora. Elizabete Drabecki, 46, do Paraná, participa como coordenadora da cozinha.  Os avós e pais foram vítimas da barragem no Rio Bonito de Iguaçu. “Vi as dificuldades que enfrentaram e que ainda hoje as pessoas enfrentam, abandonando seus restinhos de terra, invadidas pela água, sem qualquer tipo de indenização”, diz.

O Rio Grande do Sul também tem na cozinha produtos da agricultura familiar, produzidos pelos militantes ou da CECAFES – Central de Cooperativas, por exemplo, que reúne cerca de 30.  Tereza Pessoa, 46 anos, milita no MAB há cinco anos e participa do Encontro já pela segunda vez. Com as mãos nas panelas, explica que os projetos para construção das barragens nos municípios de Alecrim e Garrudos estão suspensos, “graças à resistência popular”.  Estes projetos atingem 19 municípios brasileiros, alagando dois centros urbanos daqui e dois na Argentina, atingindo cerca de 13 mil pessoas, conforme estudo realizado.

Foto: Luciane Godinho

Pica-se manjericão, hortelã, cebola de folha e de cabeça, mistura coloral e sal com vinagre ou cachaça e coloca tudo no liquidificador – tá pronto o molho para temperar carnes e saladas. A receita está na cozinha do Piauí, feita pela militante Erlandia de Paula, 37 anos, vítima da Barragem de Boa Esperança.  Ela conta com a ajuda de Charles Freitas, tanto na organização da cozinha, como na articulação do Movimento, que é recente.  O coloral, utilizado na receita, é produzido pelas famílias da região, assim como o arroz de terra, pilado artesanalmente.  Também ali está a farinha de mandioca, misturada, como de costume, com o café. “Fica uma delícia e alimenta”, garante  Erlandia.

Na cozinha de Minas Gerais, o menu é carne com mandioca, feijoada e arroz com pequi – fruto nativo.  A mulherada, reunida em torno das panelas, é vítima da Barragem de Irapé, além de estar em luta contra a monocultura do eucalipto e do pinho. “O eucalipto tem acabado com nossas nascentes, e a resina do pinho adoecendo nossa gente”, conta Ernani da Silva Rodrigues, 53.