Em Pernambuco, exposição das Arpilleras denuncia violação de direitos no Semiárido

Em Petrolina, Univasf recebe bordados que contam história de violações de direitos e resistências na vida das atingidas

"Nos bordados das Arpilleras nós podemos nos expressar, colocar a nossa voz que não era ouvida e agora está aí, exposta na universidade", comemora Roseneide Alves. Ela e outras mais de 40 companheiras vindas de três estados do Nordeste promovem a exposição "Arpilleras: bordando a resistência", realizada no dia 31 de agosto na Universidade Federal do Vale do São Francisco, Univasf, em Petrolina.

Usada há muitos anos por mulheres chilenas para denunciar a ditadura em seu país, a técnica de produção de Arpilleras foi apropriada pelas mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens-MAB desde 2013. "É uma importante ferramenta para aproximar as atingidas do MAB e proporcionar  a participação e expressão das mulheres", explica a militante Marta Rodrigues.

Durante a construção do bordado, as mulheres contam suas historias, debatem e trocam experiências, resultando em uma Arpilleira que denuncia as violações de direitos vivenciadas por elas. "A opressão do patriarcado sobre as mulheres retira delas a chance de se expresar, de contar o que vivem. A construção de Arpilleiras possibilita esse momento, de fortaleciamento individual e da organização coletiva", afirma Fernanda Rodrigues, do MAB. 

As dez peças expostas foram produzidas por atingidas de Ceará, Pernambuco e Bahia, durante trabalho realizado em parceira com a Uniiversidades Federal do Ceará além de momentos de discussão nas comunidades atingidas. Para a montagem do espaço, as mulheres do MAB contaram com a contribuição de estudantes de arte da universidade.

A exposição teve o apoio da comunidade universitária e organizações sociais do Vale do São Francisco, presentes também na mesa de lançamento do evento. Professoras e estudantes da Universidade Federal do Ceará-UFC, Grupo de Agroecologia Umbuzeiro-Gau, Levante Popular da Juventude, Marcha Mundial das Mulheres-MMM, Fórum Acadêmico de Saúde-FAS, Diretório Acadêmico dos Estudantes-DCE UNIVASF.

"Historicamente a universidade foi um espaço negado à população do campo e estarmos aqui hoje é um marco importante nessa relação entre povo e ciência", diz Marta. O MAB reforça que o conhecimento produzido nas universidades deve estar a serviço do povo, como um espaço de denuncia das violações de direitos humanos sofridas no cotidiano pelas comunidades,violações estas impostas por um modelo de sociedade que visa o lucro a partir da exploração do trabalhador e da terra. No entento, é também papel da universidade auxiliar na construção de alternativas que diminuam ou até mesmo acabem com essas contradições.

 

Encontro de Mulheres Atingidas do Semiárido

As 46 mulheres estão na região também para participar do segundo encontro do projeto "Mulheres atingidas por barragens construindo o conhecimento agroecológioco em áreas rurais do Semiárido nordestino", realizado em uma parceira entre o MAB e a UFC.

Com o objetivo de fortalecer a organização das mulheres atingidas e construir junto à universidade alternativas de convivência com o semiarido na perspectiva da agroecologia, o projeto vem sendo pensado desde 2015 e desenvolvido desde o final de 2016 nos três estados.

A retirada do direito à soberania alimentar é uma das princiais violações na construção de barragens com a expulsão das famílias de seus territórios. "A agroecologia já é uma vivência das mulheres atingidas e compreender essa forma como uma alternativa de produção e geração de renda é fundamental", conta Marina Calisto, militante do MAB. 

Mariana reafirma a importância dos espaços de formação política com as mulheres, que possibilitam potencializar sua atuação dentro do MAB. "O debate político é algo que sempre foi negado à mulher e nos espaços de formação elas se apropriam desses elementos para atuar no movimento", define.