Encontro Nacional tem a maior ciranda da história do MAB

Com dois anos de formação, estudo, aproximação, articulação e organização os atingidos e atingidas por barragens realizam de forma simultânea ao seu 8º Encontro Nacional a maior Ciranda do Movimento, com cerca de 200 crianças de todas as faixas etárias.

Inspirado nos círculos infantis cubanos, que eram espaços de educação populares onde se construía educação no país, a Ciranda Infantil do MAB tem se construído junto com a história da organização, pois as crianças sempre estiveram na luta e não tem como privá-las dessa experiência e aprendizado.

Há vários anos o Movimento tem se dedicado a construir um espaço específico para as crianças atingidas, que seja preparado para elas e sejam elas as protagonistas, fruto da necessidade e compreensão política da organização. “Afinal você não fala com a mesma linguagem com as crianças e os adultos, as brincadeiras, a música, a poesia a contação de histórias por vezes é mais atrativo do que longos discursos no microfone”, explica Jéssica Feiteiro Portugal, atingida pela barragem de Belo Monte (PA) e coordenadora da Ciranda Infantil no Encontro.

Tido como um espaço de Educação Popular, durante estes 5 dias de Encontro as Ciranda contempla temas que refletem a realidade das crianças atingidas pelas barragens, sua organicidade, as lutas, pautas de reivindicações, os acordo coletivos de convivência, as conquista e valores do Movimento. “A Ciranda é esse espaço, não é só um espaço de cuidado das crianças, sabemos que foi assim que começou, mas estamos avançando e também entendendo de que forma a gente consegue trabalhar esses temas com elas e que elas consigam trabalhar esses temas com a gente, expressando sua realidade ou suas reivindicações”, explica Jéssica.

O tema passou a ser debatido pois o Movimento ao longo de sua história observou que as mulheres além de serem atingidas pelo sistema capitalista, pelo patriarcado e toda forma de exploração, também sobrem violações específicas nesses contextos de barragens, conta Jéssica. Que ainda complementa:

“Foi uma pauta de reivindicação, de início a necessidade de um espaço de cuidado das crianças, quando as mulheres atingidas começaram a protagonizar os espaços organizativos. O processo de reflexão fez com que a gente entendesse que a infância é parte da constituição da personalidade e entendimento de mundo por parte da criança, mas que a Ciranda precisa ser um espaço político e pedagógico”.

A Ciranda Infantil não nasce apenas pela pressão por não ter onde deixar as crianças, mas porque o Movimento assume de forma coletiva a responsabilidade dessa educação. “As crianças não estão à parte, a gente prensa no jovens, nos adultos, nas mulheres e por vezes não apensa nas crianças coletivamente, também não é só responsabilidade dos pais, então nós construímos nossos espaços que é importante para as crianças e para o Movimento, ou seja, para todos”, explica Jéssica.

A Ciranda Infantil do MAB a nível nacional é itinerante, isso significa que não tem um espaço físico, ela acontece de acordo com a dinâmica do Movimento, em especial quando tem uma atividade, evento ou manifestação. Assim nasce a necessidade de ter um grupo para pensa-la e organiza-la de forma permanentemente. Composto por pessoas que se identificam ou já trabalhavam com o tema, forma-se um grupo nacional de 22 educadores, vindos de 10 Estados, com quem e para quem foi organizado um Curso Nacional de Educadores e Educadoras Popular, com o objetivo de formar e capacitar essas pessoas.

“No curso debateu-se desde oficinas de conteúdos sobre a infância popular, sobre a história da infância, a violação dos direitos das crianças e adolescentes por parte do Instituto que nos ampara, o que está sendo violado e também as linguagens, as oficinas de música, teatros, poesia e contação de história pois compreendemos que vamos estudar, refletir e entender sobre a realidade dos atingidos, mas vamos trabalhar  esses temas na Ciranda de diferentes formas, com outras linguagens”, relata Jéssica.

Após concluírem o curso esses educadores retornam aos seus Estado e multiplicam a experiência, fruto desse processo é um coletivo de 52 educadores nacionais, que estão contribuindo no 8º Encontro do MAB organizando a Ciranda. “De fato a gente percebe que a Ciranda é bem sólida, cada Estado tem seus educadores populares, fruto desses dois anos de formação e acumulo organizativo do Movimento”, explica a coordenadora nacional da Ciranda.

Durante o Encontro as crianças irão ter acesso as peças de teatro, contação de histórias, tudo pensado e preparada antes, cada detalhe. São trabalhados temas como a privatização da água, a água como fonte de vida, como fonte de energia, a Revolução Russa, a história do Movimento, dos lutadores e lutadoras do povo, bem como, serão realizadas oficinas de música, ciências e tecnologia, audiovisual, construção de brinquedos, água e energia.  Todas as dinâmica nascem no próprio Movimento e tudo o que está sendo debatido no Encontro, está sendo debatido na Ciranda, respeitando a faixa etária.

Segundo Jéssica essa é a primeira grande experiência com um plano político pedagógico e metodológico organizado. “Entre os educadores há comissão política pedagógica que preparou tudo isso antes e que agora está sendo executado com uma equipe de entorno 150 educadores, e 200 crianças, é a maior Ciranda já realizada na história do MAB.

“Tem sido de muita alegria preparar, tudo está sendo organizado, desde a alimentação, lanches das crianças, estrutura material e pedagógica, tudo isso a gente conseguiu via projetos. Nosso grande desafio agora é conseguir garantir que tudo funcione, porque tudo está muito bom no planejamento, mas o resultado disso a gente vai ver no último dia quando as crianças estão preparando sua intervenção na plenária, momento em que elas irão apresentar tudo o que conseguiram aprender na Ciranda. No próximo encontro é provável que várias delas estarão em outras frentes, não mais na Ciranda, talvez como Educadores, mas não mais como crianças”, conclui Jéssica.

Sobre a Organicidade da Ciranda Infantil durante o Encontro

Algumas crianças estão participando pelo primeira vez do espaço da Ciranda Infantil, outras já tem uma história, as que já participam estão encantadas e isso mostra o quanto avançou-se com relação as cirandas anteriores. As 200 crianças estão organizadas por faixas etárias: entre 0 a 1 ano; de 2 a 3 anos; de 4 a 6 anos; de 7 a 12 anos; e, os pré-adolescentes de 12 a 14 anos, porém só aqueles que ainda se identificam com a Ciranda e não querem estar na plenária.

Cada faixa etária tem uma coordenação que integram a coordenação política pedagógica da Ciranda, composta por 11 pessoas, e, há uma coordenação geral da Ciranda. Cada faixa etária tem uma pessoas que pensou como trabalhar cada temática, a programação geral e específica.

As crianças também tem sua organicidade específica, como um grupo de base, exceto as crianças de 0 a 1 ano. O grupo ajuda na organização e execução das atividades, refletindo em muito a organicidade do MAB. Além de realizar as atividade pedagógicas e lúdicas, esses grupos de base tem alguma tarefas, como a organização do espaço e quando forem desenvolvidas as atividades programadas.

Divididas em atividades políticas pedagógicas, lúdicas, as oficinas de produção trabalham as temáticas dos atingidos e atingidas que são: as histórias dos lutadores e das lutadoras do povo; água e energia; e, a identidade dos atingidos. A metodologia adotada irá potencializar que as crianças contém o que elas sentem, ou, entendem por cada tema como por exemplo: energia, barragem, movimento e por aí vai. A brincadeira é trabalhada como um princípio pedagógico, não é um momento livre elas refletem as relações sociais e a realidade das crianças.

A Ciranda conta ainda com o apoio de uma técnica em saúde bucal e ela vai trabalhar com as crianças a criação do porta escova de dente e também a evidenciação da placa bacteriana e a remoção por meio da escovação, bem como a saúde geral das crianças. Terá também o cantinho da leitura com os livros que forma doados à Ciranda. Todas as experiências que o MAB tem acumulado estão sistematizadas em duas cartilhas que forma lançadas home.