Água para o povo, não para o lucro!

Quase duas décadas depois do grande levante boliviano, baianos e cearenses nos animam novamente na luta pela água


Artigo de Roberto Oliveira*

É difícil acreditar que para os detentores do poder que possuem o controle das máquinas, das terras e dos recursos naturais, tudo pode ser transformado em mercadoria que gera mais e mais lucro para poucos, nem que para isso tenham que enganar, saquear e até matar pessoas e sonhos.

A água, um recurso natural imprescindível à vida na terra, é um dos bens mais cobiçados pelos saqueadores do mundo, ou seja, os grandes capitalistas. Para ter esse bem em suas mãos, eles atacam pessoas, territórios, corrompem governos e manipulam estados. Porém, o povo não é passivo a tudo isso e por todo o mundo podemos identificar conflitos causados por disputas no controle da água. De um lado os trabalhadores, que defendem o recurso como um bem público. Do outro o grande capital que enxerga na água uma mercadoria lucrativa.

Um bonito exemplo nos veio da Bolívia, quando no fim dos anos 90 e início do novo século todo o controle e abastecimento de água da cidade de Cochabamba foram entregues a uma empresa privada, subsidiaria da multinacional norte-americana Bechtel. Lá houve muita revolta e organização popular. Os trabalhadores urbanos e camponeses se rebelaram contra a decisão e protagonizaram um dos maiores enfrentamentos à imposição do capital na história da Bolívia, construindo uma luta com um forte caráter antiprivatista e anti-imperialista.

Mais de 600 mil pessoas foram às ruas, elevou-se o patamar do enfrentamento, a polícia foi reforçada e também a repressão, porém os defensores da água não se intimidaram e radicalizaram no nível do enfrentamento. Enquanto a cidade foi tomada por manifestantes que reagiam à violência da polícia, no campo os camponeses trancavam estradas e acessos à cidade.

Outro exemplo mais atual vem da Bahia. Quase duas décadas depois do grande levante boliviano, Correntina nos anima novamente na luta pela água ao se levantar contra o desmando das empresas nacionais e estrangeiras sobre o seu território. Milhares de pessoas foram às ruas para dizer que não aguentam mais os saques que o agronegócio faz na região e que não vão permitir que as águas dos seus rios sirvam somente para matar a sede de lucro.

No Ceará não é diferente. O município de Caucaia na região metropolitana de Fortaleza é palco da luta entre trabalhadores e empresas. De um lado os que querem proteger o Lagamar Cauípe, desenvolver as comunidades, levar água a quem não tem e do outro o forte capital privado, que tenta se apropriar dessa água para que seja possível a geração de mais mercadorias. As famílias da região atingida, que convivem há bastante tempo com as violações dos direitos humanos ocasionados pela implantação de diversas empresas no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, já não aceitam mais que a prioridade do uso das águas no Estado, que passa por seguidos anos de seca, seja dos grandes empreendimentos, tais como Siderúrgica e Termelétricas e se levantam contra o projeto de obras do Governo do Estado, que visa a retirada das águas do Lagamar do Cauípe para abastecer o sistema do Eixão das Águas. Nesse sentido, no dia 7 de dezembro, dezenas de pessoas ocuparam o canteiro de obras no trecho da obra em execução na comunidade Coqueiros, montaram acampamento e seguem para o 6º dia de resistência.

Desse lado estão os que verdadeiramente lutam pela vida, pelo meio ambiente e pelo desenvolvimento, não o desenvolvimento que saqueia, que rouba, que engana e que gera lucro financeiro à custa da exploração, mas sim o desenvolvimento social, ambiental, cultural, o desenvolvimento em que as pessoas estão no centro. Nesses cinco dias de ocupação e luta permanente é possível ver a indignação transparecer nos olhos de quem sempre trabalhou e viveu na beira dessas águas. Também é notável a solidariedade que desperta no povo em luta, a solidariedade que é principio da classe que trabalha. É possível enxergá-la na construção das barracas, na fila para o café, no banho na lagoa, na lavagem de roupas, nas assembleias, nas mobilizações das comunidades, no planejamento coletivo e na divisão de tarefas. É possível ver o amor ao rio e aos companheiros/as e sentir a indignação de quem não quer perder para o capital sua fonte de trabalho, lazer e identidade.

Que a luta possibilite alcançarmos o desafio de manter a água sob o controle dos verdadeiros defensores da vida, que a luta traga o verdadeiro desenvolvimento para as comunidades atingidas pela gula do capitalismo. Só a luta organizada pode nos trazer essa esperança de dias melhores. Nesse justo combate por soberania devem apoiar-se muitos outros lutadores/as. Somos milhões de trabalhadores e nossas fileiras estão em formação. Os inimigos da água, da vida e do povo que se cuidem, pois terão que prestar conta com a rebeldia dos filhos da terra que cantam em coletivo e cada vez mais forte a bonita melodia da justiça e da liberdade.

*Integrante da coordenação estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens no Ceará