“As hidrelétricas vieram para Rondônia e acabaram com a gente”

Por Joka Madruga, do Terra Sem Males

Era 19 de julho de 2015, um domingo, saímos cedo de Porto Velho-RO rumo ao distrito Nova Mutum-Paraná, no meio da Amazônia, a 106km da capital rondoniense, e de lá seguimos até o acampamento do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) nas margens da BR 364. Aproveitei a carona com uma equipe de comunicação do movimento que foi para lá realizar um documentário que em breve estará disponível.

A motivação da viagem era conversar com pescadores e pescadoras, vítimas da usina hidrelétrica de Jirau, para meu projeto Águas Para Vida – uma reportagem fotográfica sobre os atingidos por barragens na Amazônia. Uma das atingidas com quem conversamos foi Nilce de Souza Magalhães, a Nicinha, militante do MAB que está desaparecida desde o dia 07 de janeiro de 2016.

No rio Madeira, muitas famílias de pescadores tiveram que ser realocadas por causa da construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. Uma das lutas destas pessoas é uma justa indenização e realocação para poderem seguir em frente com suas vidas. Nicinha era uma das porta-vozes deles. Sempre denunciando e cobrando ações para sua comunidade.

Chegamos no acampamento do MAB, nas margens da rodovia no KM 876, entre os rios Cutia, Mutumparaná e Madeira, a 167km de Porto Velho-RO, perto do meio-dia. Os barracos ficam numa ilhota, no meio de uma lagoa formada por causa da barragem de Jirau. Da estrada até as residências dá uns 300 metros. E a única forma de chegar é de canoa ou voadeira. Estacionamos o carro no acostamento da rodovia para gritar e acenar rumo aos barracos, do outro lado das águas. Pouco depois, vimos uma senhora entrar numa embarcação e vir em nossa direção. Era uma vizinha de Nicinha que foi nos buscar.

Atravessamos na canoa e encontramos a pescadora Nicinha, de quem eu tinha ouvido falar muitas vezes nos dias que fiquei em Rondônia. Uma mulher com semblante forte, marcada pelo sol, cabelos lisos, sorriso fácil e forte personalidade. Não parecia ser mulher de levar desaforo para casa. Na beira da estrada ficava um freezer com peixes, que ela deixava para venda. Pediu para que um da comitiva voltasse até lá e pegasse dois peixes para o almoço, o qual assou e serviu com arroz e salada. Seu barraco era simples.
Um telhado de diversas lonas remendadas era seu refúgio. Num canto um fogão velho e uma carcaça de geladeira, usada como dispensa. Um cercado rodeado por uma tela de arame era seu quarto, que tinha uma cama de casal e um mosquiteiro. Sentada numa rede do lado de fora foi onde a entrevistamos. A energia elétrica usada vinha de um gerador movido a óleo diesel. Ela vivia neste local com seu marido, Nei, e seus animais de estimação.

Nicinha nasceu em Xapuri, no Acre. Foi para Abunã aos dois anos de idade, onde viveu 46 anos, até a enchente de 2014 alagar toda sua casa. Sua vida era pescar. Com a destruição de sua residência, ela passou a receber auxílio aluguel de R$500,00, mas não era suficiente para o sustento de sua família. Além do aluguel ela tinha outras despesas e não tinha como pescar. Com esta situação, Nicinha disse ter acumulado uma dívida de mais de R$6 mil reais somente entre energia elétrica e água. E por isto tomou a decisão com seu marido de morar num barraco de lona.

“Antes saíamos para pescar durante uma semana e voltávamos para casa. Não tínhamos barraco fixo durante a pesca porque o rio fornecia tudo que precisávamos. Hoje moro aqui há cinco meses porque lá onde eu vivia não existe mais lugar para pescar”, desabafou.
Ela denuncia que esta situação se dá por causa das usinas hidrelétricas. “Não vamos sair daqui enquanto a usina não arrumar um lugar para os pescadores. A usina acabou com nossas casas, nos matou afogados e agora querem nos matar de fome”, afirmou.Placa da Usina de Jirau, financiada por bancos públicos e privados. 

A decisão de morar na ilha, em acampamento, foi tomada pela comissão de 36 pescadores e pescadoras. Várias entidades governamentais foram até o local para que eles saíssem. “Aqui não é o lugar ideal para morar, mas é o único lugar que temos para sobreviver. Longe dos pais, dos filhos e netos. Mas infelizmente foi o que a usina forçou para nós no Alto Madeira”, relatou.
Na época do inverno amazônico, os pescadores e ribeirinhos entram na floresta para tirar castanha e sangue-de-dragão (planta medicinal) para subsistência. Segundo Nicinha, a instalação da usina hidrelétrica de Jirau é a culpada pelo sumiço destas árvores. Com a cheia de 2014, a barragem da usina fez com que o rio Madeira transbordasse acima do previsto. Por isto, as plantas que ficaram nos alagados morreram apodrecidas, poluindo a água.

Numa das idas e vindas na BR 364, Nicinha sofreu um acidente de automóvel no fim de 2014. O carro onde estava colidiu com um ônibus da usina de Jirau. Isto lhe custou algumas costelas quebradas. Ela não recebeu nenhum tipo de ajuda por parte da empresa. “Procuramos o ônibus no dia seguinte, mas não achamos ele. Esconderam”, lamentou.

Uma das reclamações dos ribeirinhos do acampamento é de que houve alteração na temperatura da água dos rios Mutumparaná e Cutia. E que o fato das árvores apodrecerem dentro da água causou poluição e contaminação, inviabilizando para o consumo humano e prejudicando na pescaria. Para ter água potável, os moradores têm que ir no supermercado comprar.

Outro fator que os pescadores denunciam é por ter muita madeira enterrada nas margens dos rios, após a construção da hidrelétrica. “Muitos peixes morreram”, comentou.

Antes da barragem, os pescadores podiam deixar a rede armada durante a noite toda, que no dia seguinte o peixe continuava fresco. Um saco de gelo era suficiente para manter a refrigeração até a venda. Hoje precisam de muito mais. Nos dias atuais, em menos de uma hora os peixes precisam ser retirados, senão perdem a qualidade e têm que ser jogados fora.

“Já faz cinco anos que a usina fala em fazer análise da água, pesquisa, documentação. Nós pescadores temos filhos, netos. São cinco anos de estudos. Querem mais quantos anos para fazer a coisa certa? Nosso peixe de qualidade sumiu. Aqui um saco de gelo para manter fresco o que pescamos custa R$30,00. Em Porto Velho sai por R$12,00, mas olha o quanto irei gastar para ir até lá?”, reclamou Nicinha.
Uma das alternativas para as famílias era ir para Nova Mutum-Paraná. Após a conclusão da usina, as casas vazias foram ocupadas por ribeirinhos que ficaram sem teto. Porém, muitos pescadores não quiseram ir por falta de emprego e por ser longe dos rios. “A usina e os órgãos competentes deveriam fazer um trabalho bonito. Não somos vagabundos, queremos nos sustentar com dignidade. Se eu for morar no Mutum, vou viver do que? Vou comer o que?”, questionou.

De acordo com os pescadores, a usina de Jirau fez uma proposta de ajuda de custo de R$250,00 para até três pessoas por família, R$450,00 para até cinco e R$650,00 acima de sete. “Isto é uma falta de respeito. As hidrelétricas vieram para Rondônia e acabaram com a gente. O que uma pessoas faz com R$250,00 por mês? Não paga nem o transporte para irmos buscar este dinheiro em Porto Velho”, afirmou Nicinha.

O projeto Águas Para Vida – uma reportagem fotográfica sobre os atingidos por barragens da Amazônia é atemporal. Não tem uma previsão para ser concluído. Tudo depende da captação de recursos para viabilizar as viagens. Inicialmente eram três rios, mas no decorrer da jornada aumentou para seis. Além desta viagem a Porto Velho, em setembro de 2013 e março de 2015 estive em Altamira-PA documentando a luta do povo de lá contra Belo Monte. A entrevista com Nicinha é parte do projeto sobre o Rio Madeira, mas devido ao seu desaparecimento, decidi publicá-la para mostrar sua militância local pelos atingidos.
Como cidadão brasileiro sou solidário à família de Nicinha. Que a Polícia Civil de Rondônia dê uma resposta eficaz o mais rápido sobre seu desaparecimento e paradeiro.

Água, mulher e energia não são mercadorias!

Fotos e textos na íntegra aqui