Jornada de Luta mobiliza atingidas por barragens em todo país

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, atingidas por barragens saíram às ruas para denunciar a responsabilidade da Vale pela morte de 19 pessoas no rompimento da barragem em Mariana (MG), além do impacto dos aumentos da energia elétrica na vida das mulheres.

Nos dias 8 e 9 de março, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) saiu às ruas nas cinco regiões do Brasil em Jornada Nacional de Luta. Protagonizado pelas atingidas por barragens, as manifestações denunciaram a responsabilidade das mineradoras - Samarco, Vale e BHP Billiton - na morte de 19 pessoas em Mariana (MG) e o impacto dos aumentos das tarifas de energia elétrica na vida das mulheres. 

Na segunda-feira (8), no Dia Internacional da Mulher, três ações simultâneas cobraram punição à Vale, pela morte das 19 pessoas ocasionadas pelo rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, localizada em Mariana (MG).

“Estivemos mobilizadas no país inteiro em marchas, ações, vigílias e escrachos para denunciar a Vale, que é responsável e culpada pelo desastre social e ambiental que aconteceu em Mariana com o estouro da barragem", destacou Alexania Rossato, integrante da coordenação nacional do MAB.

No início da manhã, aproximadamente 200 pessoas ocuparam a linha férrea da Vale, em Belo Oriente (MG). Além de cobrar a punição dos responsáveis pelo desastre no rio Doce, as principais pautas de reivindicação eram o acesso à água alternativo ao rio Doce, participação nas negociações e reparação integral de todos os danos dos atingidos.

Simultaneamente ao trancamento da ferrovia, mulheres realizavam um escracho na sede da Vale, no Rio de Janeiro. Com o apoio de diversos movimentos populares, as atingidas por barragens devolveram a lama, captada no rio Doce, à mineradora.

Já no final da tarde, um ato unificado, que reuniu mais de 2 mil mulheres em Belo Horizonte (MG), também escrachou a sede da Vale. A fachada do edifício também foi pintada de lama, também captada ao longo da Bacia do rio Doce.

Em relação às tarifas de energia elétrica, foram várias as ações. Os gritos de “o preço da luz é um roubo” puderem ser ouvidos nos quatro cantos do país. Em Curitiba (PR), na terça-feira (8), mulheres de diversas organizações protestaram em frente a Companhia Paranaense de Energia (Copel) contra os últimos aumentos do preço da luz.

“Sabemos como funciona esse sistema patriarcal, no qual as mulheres arcam com os aumentos dos serviços. São as mulheres que pagam as contas de luz e também são elas que estendem sua jornada de trabalho, caso tenha que diminuir o consumo devido à elevação do preço da luz”, afirmou a coordenadora do MAB no Paraná, Nívea Diógenes. 

O mesmo ocorreu em Altamira (PA), onde mulheres atingidas pela hidrelétrica de Belo Monte protestaram contra os preços abusivos da conta de luz, decorrentes da privatização da Celpa. Também houve protestos contra os preços cobrados pela distribuidora na capital, Belém (PA), e em Itaituba (PA).

Confira o balanço completo da Jornada de Luta:

Piauí

Centenas de mulheres, integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens, ocuparam na terça-feira (8) o Complexo da Estação de Tratamento de Água da Agespisa (Águas e Esgostos do Piauí S/A), localizado em Teresina, capital do Piauí.

Dentre os principais objetivos da mobilização, está a suspensão da privatização da água, que tem como objetivo transferir os ativos públicos da empresa para o controle do capital privado, que aumentará a tarifa e precarizará ainda mais os serviços.

Pernambuco

Na terça-feira (8), atingidas por barragens caminharam pelo município de Santa Maria da Boa Vista (PE) para denunciar o alto preço das tarifas de energia, que impactam principalmente a vida das mulheres nos lares brasileiros.

“O grupo Neoenergia, grupo multinacional europeu que se apropriou da riqueza do povo pernambucano, tem roubado o povo historicamente. As mulheres estão indignadas e não aguentam mais isso e vêm denunciar essa violência", afirma a militante do MAB, Marta Rodrigues.

Ceará

Na terça-feira (8), mulheres atingidas por barragens se somaram no ato unificado da Frente Brasil Popular, em Fortaleza (CE), para denunciar as altas tarifas energia elétrica, além de denunciarem a tentativa de golpe que está em curso no Brasil. Além disso, denunciaram a atual política econômica e reivindicaram a ampliação dos direitos sociais.

No dia seguinte, na quarta-feira (9), atingidas e atingidos ocuparam o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), também na cidade de Fortaleza (CE). Com mais de 600 pessoas, vindas das regiões do Vale do Jaguaribe, Maciço de Baturité e Figueiredo, os manifestantes cobraram do governo pontos estruturantes para os reassentamentos e comunidades atingidas, como: acesso a água, terra, reassentamento e produção de alimentos.

Pará

Atingidas por barragens do Pará se somaram as milhões de mulheres lutadoras desse país e foram às ruas na terça-feira (8), para denunciar o abuso do preço da energia elétrica. Elas também denunciam que o modelo energético vigente no país, causador de graves violações de direitos humanos, sendo as mulheres as mais prejudicadas. Houve protestos contra à Celpa, em Belém, Itaituba e Altamira.

Na quarta-feira (9), o MAB e o Sindicato dos Urbanitários fizeram um protesto em frente à sede da Celpa, em Belém. A atividade teve o objetivo de denunciar o abuso do preço da tarifa praticado no estado. A empresa foi privatizada em 1998 no governo de Almir Gabriel (PSDB) e desde então, a qualidade do serviço vem diminuindo e o preço da tarifa está cada vez mais alto.

Também na quarta-feira, 150 atingidos ocuparam o escritório do Governo Federal em Altamira (PA), com o objetivo de pressionar o governo federal a atender as demandas dos atingidos por Belo Monte.

Rondônia

No dia 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, 300 atingidas por barragens ocuparam a Eletronorte, em Porto Velho (RO), para denunciar as altas tarifas de energia elétrica praticadas pela Ceron, além de denunciar o processo de privatização da distribuidora.

Na quarta-feira (9), 350 atingidos ocuparam a superintendência do IBAMA, em Porto Velho (RO), para reivindicar o cumprimento das condicionantes socioambientais do empreendimento e a garantia dos direitos negados e violados na construção das hidrelétricas no rio Madeira.

Entre as pautas está a suspensão da reintegração de posse em Nova Mutum Paraná, a destinação social das casas ocupadas e a garantia de todos os direitos das famílias de Abunã, distrito a ser remanejado devido a formação do reservatório de Jirau.

Tocantins

Na terça-feira (8), em Tocantins, cinco trabalhadores são presos no dia internacional da mulher. A polícia escolheu os homens que estavam na manifestação prestando solidariedade à luta das mulheres. Usaram como alegação para prisão dos homens que “as mulheres estavam na ação por influência dos homens”. 

As mulheres ocuparam o Ministério da Agricultura em Palmas, Tocantins, para protestar contra o projeto MATOPIBA, que pretende entregar as terras brasileiras para as empresas estrangeiras, em especial japonesas e chinesas.

Goiás

Cerca de 1200 camponesas ocuparam, na madrugada da terça-feira (8), a Secretaria da Fazenda (SEFAZ), em Goiânia. Os movimentos sociais reivindicaram ações concretas para o combate à violência contra as mulheres e a promoção à saúde, por meio de políticas públicas e a garantia de atendimento especifico às camponesas, entre outras pautas.

Minas Gerais

No início da manhã de terça-feira (8), no Dia Internacional de Luta das Mulheres, 200 pessoas ocuparam a linha férrea da Vale no distrito de Cachoeira Escura, município de Belo Oriente (MG), na região do Vale do Rio Doce.  Os manifestantes eram mulheres, homens e crianças do Norte, Jequitinhonha, Zona da Mata e Vale do Rio Doce, todos atingidos pelo modelo exploratório das hidrelétricas e da mineração.

Nesse mesmo dia, em Belo Horizonte, as mulheres comemoraram o protocolo da Política Estadual De Direitos dos Atingidos por Barragens, na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais. Entre os principais avanços desta política está a definição de um conceito legal de atingido por barragem, o reconhecimento de que “toda a região” é atingida, o reconhecimento legal de vários direitos conquistados historicamente pelo MAB e a criação de um órgão de Estado com a participação dos atingidos para monitorar a implantação da política, entre outros.

No final da terça-feira, mais de 2 mil mulheres escracharam a Vale em Belo Horizonte, em ato unitário pelo Dia Internacional das Mulheres. A fachada do edifício também foi pintada de lama, também captada ao longo da Bacia do rio Doce.

Na quarta-feira (9), mulheres mineiras realizam ato pela diminuição do preço da luz e denunciaram contrato entre CEMIG e Samarco, por fornecimento mais barato de energia. A ação ocorreu na sede da estatal mineira de energia, em Belo Horizonte.

Rio de Janeiro

“Não é inocente: a Vale mata rio, mata bicho e mata gente”, entoaram ao som de funk a batucada comandada pelo Levante Popular da Juventude. No bairro do Leblon, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, aproximadamente 400 mulheres e homens protestaram, nesta terça-feira (8), em frente à sede da Vale, uma das mineradoras responsáveis pelo maior desastre ambiental da história do Brasil.

No dia seguinte, na quarta-feira (9), 300 atingidos por barragens e eletricitários realizaram manifestação na sede da Eletrobras, no Rio de Janeiro. Eles protestaram contra o projeto da estatal de privatizar empresas do setor elétrico, provocando queda na qualidade dos serviços e aumento dos preços.

São Paulo

A pescadora e ativista Nilce de Souza Magalhães, conhecida como Nicinha, do MAB de Rondônia, que está desaparecida desde o dia 7 de janeiro de 2016, foi lembrada durante ato unitário das mulheres em São Paulo.

“Nós exigimos mais agilidade e justiça para saber quem são os responsáveis por esse crime. Não queremos mais nenhuma morte!”, diz Yara Naí, do MAB.

Paraná

Na terça-feira, centenas de atingidas por barragens ocuparam a frente dos escritórios centrais da Companhia de Energia do Estado do Paraná (Copel), em Curitiba (PR), em protesto contra os abusivos preços da luz.

De acordo com a coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Lunéia dos Santos, nos últimos três anos a tarifa de energia elétrica aumentou mais de 100% no estado. “O governo Richa utiliza a Copel para explorar o povo e beneficiar o sistema financeiro e os acionistas privados da companhia”, afirma Lunéia.

Estes aumentos propiciaram um lucro de 853 milhões de reais para a Copel, incidindo sobre o aumento geral da inflação no Paraná acima da média nacional, penalizando toda a população.

Santa Catarina

Coordenadas pelo Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), e com participação de atingidas por barragens, sem terra e pequenas agricultoras ligadas a Fetraf, as mulheres catarinenses ocuparam as ruas de Chapecó (SC) no dia 8 de março.

Rio Grande do Sul

Cerca de 1200 camponesas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ocuparam, na manhã da terça-feira (8), o prédio da superintendência regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Porto Alegre (RS). Elas reivindicaram anulação da titulação das áreas de assentamentos, e que todas as mulheres assentadas tenham acesso a políticas públicas, como o Fomento Mulher e Kit Feira, que incentivam a produção de alimentos no modelo agroecológico.

Na quarta-feira (9), as mulheres MAB e MST, que ficaram acampadas na sede do INCRA-RS, tiveram um momento de estudo e debate sobre o preço da energia elétrica. Foram inúmeros relatos das mulheres sobre as dificuldades que enfrentam no orçamento doméstico para dar conta de pagar a tarifa de energia, muitas vezes tendo que cortar os gastos com alimentação, saúde ou até mesmo do material escolar das crianças.