Mariana: Dois anos de lama, dois anos de luta

Diante dos desafios que se anunciam é preciso unificar a organização, elaborar com clareza a pauta de reivindicações, ampliar as alianças e o diálogo com a sociedade e fazer a luta social com coragem e esperança. 

No dia 5 de novembro de 2017 completou dois anos do maior crime ambiental da história do Brasil e um dos maiores da mineração global. Os cerca 50 milhões de metros cúbicos de rejeito mineral pertencentes à Samarco Mineração S.A, de propriedade da Vale e da BHP Billiton, percorreram mais de 620 km de cursos d’gua entre Mariana e a foz do Rio Doce, no distrito de Regência, em Linhares, Espírito Santo, e também se espalhou pela costa e pelo mar, deixando uma ferida aberta na sociedade brasileira.

Ferida que começa em cada uma das mais de 350 famílias que perderam suas casas nas comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu, Ponte do Gama, Pedras, Borba, Campinas, Barretos e Gesteira, e que não sabem sequer o dia em que as obras de reconstrução vão começar. Continua nos proprietários de terra que tiveram perda de renda e destruição de bens no pedaço de chão em que viviam. Cresce em cada morador de Barra Longa que viu casas, quintais, praças, igrejas destruídas pela avalanche de lama, além de depois terem que conviver cotidianamente com a desesperança, a injustiça e as doenças que se multiplicaram como resultado deste crime.

Esta ferida sangra quando a Samarco nega os direitos de garimpeiros faiscadores e pescadores artesanais em Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado oferecendo R$1.900,00 para um grupo e R$450,00 para outro promovendo de forma criminosa a divisão comunitária e a destruição do processo coletivo.

Nas grandes e pequenas cidades, nos lugarejos e distritos, nas vilas e aldeias este crime promoveu crise aguda de abastecimento de água seguida de permanente desconfiança com a água suja pela lama da Samarco, seja para uso comercial nas mais variadas atividades, no uso familiar ou na produção agropecuária, seja na pesca artesanal ou profissional. São mais de13 mil pessoas que perderam esta importante fonte de trabalho nas águas doce e salgada atingidas pelas maiores empresas da mineração global no minério de ferro.

Neste contexto de injustiça, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) amplia sua presença e o esforço permanente de levar informação para as comunidades, construir os argumentos de denúncia com a participação dos atingidos, transformar informação e argumentos em poder popular com organização de base e luta social pelos diretos que devem mobilizar o máximo de pessoas possível fazendo amplo diálogo com a sociedade e buscando alianças para fortalecer a luta no longo prazo.

Após a “Marcha de Regência à Mariana” e o “Encontro de 1 ano do Crime” realizados entre 31 de outubro e 5 de novembro de 2016, reunindo pessoas de todo o Brasil, neste último ano o MAB realizou inúmeras atividades nas comunidades atingidas estando organizado em cinco pólos de atuação: Mariana, Barra Longa, Ipatinga, Governador Valares e Colatina, com extensão para Vitória.

Realizou atos de denúncia contra a inoperância do poder judiciário que atua favorecendo as empresas; protestou diante das sedes das mineradoras, como a Vale, no Rio de Janeiro; esteve na Assembleia dos Acionistas da BHP Billiton, em Londres, para denunciar o crime; fechou estradas e ferrovias das mineradoras para pressionar contra a negação de direitos, etc.

A partir da coragem dos atingidos, foram alcançadas conquistas importantes como o reconhecimento de comunidades atingidas na Foz Norte e Sul do rio Doce; a obrigação das empresas de pagarem adiantamento de indenização e cartão subsistência, com a mudança de moradias e reforma de casas dos moradores do Parque de Exposições em Barra Longa, além da conquista da Assessoria Técnica independente na mesma cidade, após meses de luta e pressão enfrentando permanente boicote das empresas.

Muitos desafios se anunciam diariamente para todos os atingidos da bacia. É preciso crescer em organização e unidade, utilizar de forma cada vez mais inteligente e unificada todos os instrumentos de pressão, com a preciosa contribuição de parceiros que estão nas igrejas, nas universidades, no Ministério Público Federal e Estadual, entre outros.

Igualmente, é necessário vencer o bloqueio midiático que só se interessa pelos atingidos em tempos de aniversário da tragédia e que não acompanham os processos; elaborar uma pauta clara de reivindicações por cidade ou região, mas que deve ser instrumento de luta do conjunto dos atingidos organizados na bacia e, sobretudo, vencer qualquer tentação de desânimo. Não podemos perder a energia diante da cotidiana tentativa das empresas de “empurrar com a barriga” todo o processo de reparação, além de combater a autonomia das comunidades por meio da farsa do “Diálogo Social” e da Fundação Renova, instrumento nascido de um ato autoritário e que, portanto, não deve ser reconhecido pelos atingidos.

O MAB não é um conjunto de representações em nome do povo, tão pouco um discurso que se ouve em reuniões. É o próprio povo construindo no campo e na cidade um instrumento coletivo e popular de luta, de organização e de esperança e que é reconhecido internacionalmente após mais de 26 anos atuando em 19 estados do país. Ele tem sua legitimidade reafirmada em cada pequeno lugar onde homens, mulheres, jovens e crianças acreditam e se tornam sujeitos da própria história, incluindo os atingidos e atingidas por este crime que verão gerações se sucederem sem verem cicatrizadas as feridas abertas pelo mar de lama.