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Mirela

É preciso arriscar-se. Mas sem aventuras. Olhar a água, medir a fundura, notar a curva, ler o que existe atrás dela, sentir a cachoeira, sorver, num único suspiro, o cheiro das flores e o odor fétido do esgoto nas mesmas águas 

Por Antônio Claret Fernandes*

O dia 20 de maio se inicia com avaliação coletiva na formação de jovens do MAB, Zona da Mata mineira. O mote desse processo formativo é a preparação para Encontro Nacional, que se realizará nos dias 1º a 5 de outubro, no Rio de Janeiro, com o tema ‘Água e Energia com Soberania, Distribuição de Riqueza e Controle Popular’.

A programação não prevê avaliação nesse momento, mas a noite anterior, mal dormida, mexe nos horários.

 Mirela é uma das jovens indignadas. Dir-se-ia com raiva. E com razão! Sai de Mariana após aula, à tardinha, espreme o tempo aqui e ali, chega à noite a Airões, local da formação, e não consegue pregar o olho por causa da guerra de travesseiro entre os participantes.

Os mais apressados podem logo concluir que, pelo visto, falta seriedade nesse processo formativo. Ledo engano! É justamente porque o processo é sério, sem disciplina imposta, que, nessa fase, esses incidentes ocorrem.

Essa ainda não é uma Turma de formação, propriamente. O momento é de lançamento de rede em rio aberto, os peixes são variados e, as espécies, não conhecidas o suficiente.

Existem os que estão ali por pura curiosidade. Existem os que vão acompanhando seus amigos. Existem os que não sabem diferenciar, por enquanto, um curso de um piquenique nem o MAB da comunidade. Mas existem os que, feito Mirela, sabem a razão de estar ali.

Processos formativos são desafiantes e, sempre, uma aposta. Errado é não iniciá-los ou transformá-los em evento.

Imagine? Você está vendo o rio todo dia e sabe que, por ali, há peixes. Apesar dos esgotos que se lhe lançam.

Peixes vivem nos rios assim como militantes, em potencial, estão no meio do povo. É ali que se deve buscá-los.

Preparam-se os anzóis, a isca, a rede, o barco, todos os apetrechos, até a matutagem. Mira-se o rio. Reparam-se os peixes nadando, alguns sem rumo. Tantos morrem sem quê nem pra quê.

Instrumento é importante, mas é pouco. É preciso arriscar-se. Mas sem aventuras. Olhar a água, medir a fundura, notar a curva, ler o que existe atrás dela, sentir a cachoeira, sorver, num único suspiro, o cheiro das flores e o odor fétido do esgoto nas mesmas águas. E imaginar que, nessa contradição, marcada de vida e morte, há peixes variados, muitos cardumes, e sonhar militantes.

O Mar não está para peixe. A não ser tubarões. A conjuntura é nebulosa. A ultradireita está forte no mundo todo.

Ontem (9/6), no TSE, o voto minerva de Gilmar Mendes desempata a Partida. Temer continua no governo. Mas o verdadeiro jogo é outro, pois a única coisa que interessa aos capitalistas, aos impérios econômicos, sem pátria, é acumular em qualquer conjuntura.

A ‘salvação’ da classe trabalhadora é que há rios, há igarapés e córregos, há fontes de água, há rua, e isso dá a possibilidade de um passo adiante.

Sem a prática, sem a luta concreta, acompanhada de processo formativo permanente, a pesca é tomada do sentimento de ilusão, abstrato e monótono. Insuportável!

Instrumentos bem preparados é coisa boa, mas somente o seu manejo, na prática, desvenda o mistério do rio, com seus redemoinhos, seu potencial, sua riqueza.

Nesse sentido, a prática de encontros, com possibilidade de peixes de todo tipo, alguns até ‘fora d’água’, pode mostrar a dimensão do potencial humano e de luta em pessoas comuns. Ela constrói um olhar diferenciado que enxerga elementos ocultos ao senso comum.

A guerra de travesseiro e a noite mal dormida, seguidas de avaliação coletiva, tornam-se, assim, pedagógicas nesse lançamento de redes, o terceiro na Zona da Mara mineira nesse último período.

Fato é que no momento não há peixes pulando dentro da barca. Principalmente quando se trata de jovens. Eles são muito disputados e suportam muitos afazeres. Igrejas, ONGs, partidos políticos, até traficantes, todos querem usar a energia da juventude.

Mas há muitos peixes bons que, se atraídos, com sabedoria, não fogem do barco nem da luta. E podem pilotá-lo no futuro. A exemplo daquela menina de cabelos compridos que faz história e ajuda a formar dois mil jovens das diferentes regiões do Brasil, da outra de risada alta, daquele que às vezes gagueja, da que milita na secretaria, do que aprende ser militante a partir da Escola Nacional de Energia Popular, do outro que faz da muleta seus pés, da mulher camponesa que lembra as datas de cor, da que dá à luz Maria no Xingu, e tantos e tantas, antes apenas jovens, hoje militantes e dirigentes na classe trabalhadora. 

Sem a força potencialmente revolucionária da juventude qualquer iniciativa que sonhe ser duradoura está fadada ao fracasso, vira canoa furada.

Há peixes, muitos peixes, cujo sonho vai muito além da raseira das praias e dos esgotos, despejados no rio; muito além das represas, cercadas por todos os lados, e dos trechos de rio já conhecidos; muito além das lavras de minério. Furações e tempestades do capital, com fortes ondas à ultradireita, matam, mas geram suas contradições, e inquietam a alma rebelde de jovens que desejam fazer a travessia ao socialismo, num rio novo, sem exploradores nem explorados, e sem esgotos.

Mirela, pescada na lama criminosa da Samarco, quase sufocada pela ganância, sem o oxigênio de perspectiva de retomada de vida, abre o coração. Diz que o homem se move por interesse, que o lucro é o centro de tudo e confessa que ‘a Samarco sabia das comunidades abaixo, mas gente não conta, exceto para ser consumidor e mão de obra’. Indignada, exclama: ‘essa empresa destruiu nosso sonho!’.

Além de Mirela, muitos outros peixinhos (ou são estrelas?) estão se aproximando da luta, instrumento eficaz para recuperar e construir sonhos. Sem castelos de areia. Sem ilusões. Lênin lembra que não é problema sonhar, mas com os pés no chão.

Um novo ‘pequeno’ cardume de peixes (ou constelação?) escolhidos – os mais rebeldes do ponto de vista ideológico – vão se encontrar, agora, nos dias 16 a 18 de junho, na Escola Nacional de Energia Popular. O método é do menor ao maior, pois, como afirma um morador da Transamazônica, no Pará, a roda grande gira dentro da pequena.

Mas a pescaria continua! Em agosto haverá um novo espaço amplo.

O potencial de peixes bons nas águas da vida é infinito. Eles estão nos igarapés e córregos, nos rios, nos mares, nas lamas, por toda parte. É só conviver, lutar junto, reparar bem.

*Claret é militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana (MG)