No RJ, trabalhadores protestam na Eletrobras contra privatizações

por Thiago Alves, do Rio de Janeiro

Fotos: Joka Madruga

Cerca de 300 atingidos por barragens e eletricitários realizaram, na manhã desta quarta-feira (9), manifestação na sede da Eletrobras, no Rio de Janeiro. Eles protestaram contra o projeto da estatal de privatizar empresas do setor elétrico, provocando queda na qualidade dos serviços e aumento dos preços.

A proposta prevê a privatização de sete empresas de distribuição nos estados do Amazonas, Acre, Goiás, Rondônia, Piauí, Alagoas e Roraima. Para Nailor Gato, presidente do Sindicato dos Eletricitários de Rondônia e vice- presidente da Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), o que está em curso no Brasil é um processo de entrega da soberania nacional. 

“Entregar para a inciativa privada empresas de um território tão imenso e em um setor tão importante é enfraquecer a presença do Estado brasileiro em uma região estratégica. Como tudo isto vai provocar a precarização do trabalho, a terceirização em massa e a piora na prestação dos serviços, a população não vai ter condições de ficar neste imenso território, boa parte na Amazônia legal. O despovoamento e a piora na qualidade de vida se tornarão um desdobramento de grandes e tristes repercussões, incluindo no seu desenvolvimento humano e econômico”, afirmou Nailor.



Magno dos Santos Filho, diretor de formação do Sindicato dos Eletricitários do Rio de Janeiro e secretário de organização da FNU, relembrou o que significou a privatização da Light. “Antes de ser vendida, a Light era uma empresa reconhecida pela sua qualidade recebendo prêmios de desempenho e trabalhando com 12 mil funcionários. Agora, privatizada, depois de demitir 8 mil trabalhadores, a empresa amarga condições terríveis, um símbolo de péssimo serviço prestado”, comentou. “Me aponte um processo de privatização que deu certo, que os serviços melhoraram, que a sociedade brasileira saiu ganhando”, questionou Magno, relembrando aos manifestantes que o exemplo do Rio janeiro deve deixar claro sobre o quanto temos que lutar contra as privatizações.

Lutar contra a privatização é lutar por direitos no campo e na cidade

A manifestação no prédio do Eletrobrás faz parte da Jornada Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em defesa dos direitos dos atingidas e atingidas em todo o país. Entre as dezenas de manifestações realizadas em todas as regiões estão o encontro que reuniu mais de 800 mulheres na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a paralização da linha da Vale no município de Belo Oriente (MG) e o protesto na sede da mesma mineradora no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, todos para denunciar o crime da Samarco, Vale e BHP Billiton, que matou 19 pessoas em Mariana, provocou um aborto forçado pela lama e acabou com todo o Rio Doce.

Para Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do MAB, é fundamental estar nas ruas contra a sistemática violação dos direitos humanos no setor elétrico brasileiro, que incluiu a cobrança de tarifas abusivas e a inexistência de legislação federal que garanta os direitos dos atingidos e atingidas no Brasil. “Lutar contra as privatizações é justamente buscar impedir que os bancos e as transnacionais avancem no controle de um setor tão importante para o desenvolvimento nacional. A tática dessas empresas é lucrar por meio da cobrança dos mais altos preços do mundo, mesmo nossa fonte sendo a mais barata e eficiente”, explicou.



Gilberto também lembra que a Jornada é realizada em memória das vítimas de Mariana e pela justiça no caso do assassinato de Nicinha, militante do MAB em Rondônia. “Onde está Nicinha? A família ainda não exerceu o direito de chorar seu enterro e o inquérito está enrolado. Não há nenhuma preocupação das autoridades para esclarecer este crime, que tirou a vida de uma atingida que lutava contra as injustiças causadas pela barragem de Jirau, hidrelétrica em que a Eletrobras e o Grupo Suez detêm 40% da propriedade," questiona.

Os atingidos continuam mobilizados no Rio de Janeiro. Durante a tarde, eles vão se dirigir para a sede do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), onde irão cobrar o avanço da pauta nacional dos atingidos.