No Tocantins, estudantes de colégio agrícola protestam contra novo diretor

Por interferência do atual prefeito, o antigo diretor foi demitido e a pedagogia baseada na Educação do Campo está sendo abandonada pelo novo educador

Na última segunda-feira (17), estudantes do Colégio Estadual Família Agrícola José Porfírio de Souza, localizado no município de São Salvador (TO), realizaram diversos protestos contra a nomeação do novo diretor Carlos por interferência política na unidade escolar a pedido do atual prefeito, Andre Borba. Os jovens se recusaram a entrar nas salas de aula e colocaram cartazes nos espaços da unidade escolar.

Isso vem ocorrendo devido à exoneração do diretor, Cirineu Rocha que contribuiu com a construção da unidade escolar, buscando as parcerias com as comunidades, agricultores e instituições públicas e privadas e com a equipe da unidade escolar construiu a proposta pedagógica a partir dos princípios da Educação do Campo e os instrumentos da Pedagogia da Alternância. 

Segundo uma estudante do segundo ano, não há dúvidas do profissionalismo do novo diretor Carlos, mas do que ele representa, ou seja, uma ruptura do processo construído há anos. Por capricho do atual prefeito, que não tem preocupação com uma educação de qualidade para os/as filhos/as dos trabalhadores/as, está ocorrendo a troca de profissionais com capacidade técnica por outros com objetivo de assim cumprir com suas “promessas de campanhas”.

Já o estudante Jorge, do primeiro ano do Técnico em Agropecuário Integrado ao Ensino Médio, diz que o novo diretor é uma pessoa despreparada para gerir essa unidade escolar por desconhecer os princípios da Educação do Campo e os instrumentos da Pedagogia da Alternância, algo que é de suma importância para o bom funcionamento nessa modalidade de educação.

 

Conhecendo a historia da unidade escolar

O Colégio Estadual Família Agrícola José Porfírio de Souza nasceu a partir de uma negociação após a implantação das Usinas Hidrelétrica de Peixe Angical e São Salvador do Tocantins, como forma de compensar as famílias atingidas. Seria construída uma Escola Família Agrícola – EFA, que atenderia a todos os reassentamentos e demais famílias de agricultores familiares da região, sendo pactuado no documento “Termo de Compromisso para Implantação de Reassentamentos Coletivos”, assinado pelos componentes do foro de negociação em outubro de 2008, onde ficaram definidas as responsabilidades das partes envolvidas, cabendo à CESS o aporte de recursos financeiros para aquisição de área e construção da Escola Família Agrícola e às famílias reassentadas e o MAB – Movimento dos Atingindo por Barragens, discussão e articulação da proposta pedagógica com a participação da Secretaria de Educação do Estado do Tocantins.

O entendimento das comunidades atingidas é que a construção da Escola Família Agrícola seria de extrema importância para além do pedagógico construir também um debate sobre o planejamento e organização da produção de alimentos para a região onde foram construídas as hidrelétricas de São Salvador, Cana Brava e Peixe Angical, incluindo as regiões Sul e Sudeste do Estado do Tocantins.

Assim, ao longo de 10 anos foram realizadas diversas reuniões com a SEDUC – Secretaria de Educação do Estado do Tocantins, com a participação de representante da CESS, Tractebel Energia, prefeitos, bem como reuniões com as famílias dos reassentamentos e demais comunidades de agricultores familiares da região, que resultaram na constituição da Associação de Apoio à Escola Família Agrícola José Porfírio de Souza, que tem como objetivos principais: I) A promoção do desenvolvimento rural sustentável, através da educação, da formação dos jovens, valorizando o espírito de solidariedade e respeito ao meio ambiente; II) A formação integral, visando uma educação pautada em valores humanos, técnico-científico e artístico-cultural, garantindo aos jovens do campo uma melhor qualidade de vida; III) A geração de trabalho e renda através da pré-profissionalização dos jovens estudantes.

Após ter um tempo sem discussão e reuniões, mas acreditando ser possível, em 2015, teve uma retomada dos debates sobre a implementação da Escola Família Agrícola José Porfírio de Souza, através de reuniões e debates entre a Secretaria de Educação, prefeituras da região e as comunidades, Reassentamentos e Assentamentos das Regiões Sul e Sudeste do Tocantins, que resultou por parte da prefeitura de São Salvador através da lei nº 386/2015 de 13 de Fevereiro de 2015, a doação ao Estado do Tocantins das estruturas da Escola Piabanha I, com sua respectiva área, localizada no Reassentamento Piabanha I. Na época com ajuda do prefeito Charles Evilacio M. Barbosa, que abraçou a causa da escola.  

Mas para a efetivação da unidade escolar e a necessidade de mais  espaços para alojamento a Associação dos Agricultores do Reassentamento Piabanha-I, cedeu o Centro Comunitário e a área comunitária para implementar o alojamento e as unidades de produção.

Acreditando que com toda essa junção de forças e apoio levou o governador Marcelo Miranda, a sancionar a lei nº 3.040/2015, criando o Colégio Estadual Família Agrícola José Porfírio de Souza no Município de São Salvador do Tocantins.

Assim em 07 de março de 2015 inicia as atividades da referida unidade escolar, com um prédio doado pelo município e alojamento cedido pela associação e os demais aportes sendo coletados através de doação e empréstimo garantindo assim seu funcionamento.

A construção dessa unidade de ensino tem como objetivo um novo projeto de desenvolvimento para a região sul/sudeste do Estado do Tocantins, que está mais isolada e que, portanto, necessita de um trabalho que venha auxiliar no seu crescimento e nada melhor do que através da melhoria da educação do povo que aqui reside. Essa proposta deve ser pautada num pensar de políticas, princípios e métodos pedagógicos comprometidos com a tarefa de proporcionar à população condições de se manter na escola, garantindo assim essa mudança e melhoria não só de sua população, mas de toda a região.

Então é necessário pensar que para um Projeto de Educação do Campo dar certo, primeiramente devemos repensar sua concepção de educação, lembrando que esta deve estar preocupada com o desenvolvimento humano de todas as pessoas, de todo mundo. Nesse sentido não podemos esquecer que para isso precisa contrapor-se um pouco aos valores anti-humanos que sustentam o formato da sociedade capitalista atual, ou seja, o consumismo, o individualismo, o egoísmo, o conformismo e reafirmarmos práticas e posturas humanizadoras como a solidariedade, a sobriedade, a indignação diante das injustiças, a autoconfiança, a esperança e o amor ao próximo entre outras.