Projeto Gorutuba, violação do direito à água

Maíra Gomes de Belo Horizonte (MG) 

Para o militante do MAB, a água ali tem dono, e o dono é o agronegócio   

O Perímetro Irrigado do Gorutuba é um empreendimento da Codevasf, gerido pelo Distrito de Irrigação do Gorutuba em parceria com o governo de Minas. Seu principal objetivo é o desenvolvimento da região, com ênfase na fruticultura irrigada e fortalecimento dos pequenos e médios produtores.               

Em 1986, foi apresentado o Programa Nacional de Irrigação (Proni), contendo metas e objetivos para a Política Nacional de Irrigação. O Proni abarca também o Projeto Gorutuba, em texto do Plano Mineiro de Irrigação e Drenagem. Este declara como principal objetivo contribuir para o crescimento econômico- social da região, pela criação de empregos, distribuição de renda e aumento da produção e produtividade agrícolas, visando o abastecimento interno e a formação de excedentes exportáveis.             

O militante do MAB, Mateus Vaz de Melo, denuncia que não é o que ocorre atualmente. “Com o tempo, o projeto foi tomado pelas grandes empresas do agronegócio, que produzem frutas quase exclusivamente para exportação. O que fica no Brasil é apenas o que não dá qualidade para ser exportado”, aponta.           

Agrotóxicos

Os moradores da região sofrem também com o excesso de agrotóxico usado nas plantações. “As pessoas trabalham nas monoculturas com aplicação de veneno sem roupa adequada, se contaminando. Além disso, há também os aviões que soltam veneno muito próximo às casas, causando problemas de saúde em toda a família”, diz Mateus.      

Com a barragem e canais de irrigação bem ao lado de suas casas, os moradores da Vila dos Goianos e outras vilas recolhem água com baldes ou mangueiras para o uso doméstico, como lavagem de roupas, cozimento de alimento ou regagem de pequenas hortas e pomares. Mas o acesso lhes é proibido. Quando descobertos por seguranças da Codevasf, eles são intimidados com ameaças de multas e têm seus equipamentos quebrados ou levados. “A água é um direito de todos e o direito destas famílias é violado. A água ali tem dono, e o dono é o agronegócio”, declara o militante.   

Cisternas

O Movimento dos Atingidos por Barragens tem um projeto de montagem de cisternas em diversas regiões do país, tendo sido construídas mais de duzentas apenas em Minas Gerais. Caue Melo, também militante do MAB, conta que esta é uma boa solução para a falta de água. “É uma tecnologia social de fácil construção, finalizada em apenas dois dias. Cada cisterna tem a capacidade de captação de 16 mil litros de água, que é o sufi ciente para abastecer uma família de seis pessoas durante todo o período de seca”, declara. Ele reforça que a qualidade da água é, na maioria das vezes, melhor do que a dos rios, contaminados por agrotóxicos das monoculturas no entorno, já que a cisterna faz a captação de água da chuva.