“A Samarco não quer resolver a situação dos atingidos”

A Samarco age como o bandido que entra na casa, rouba, mata, destrói tudo, depois volta com um Decreto na mão para apagar as marcas do crime. Algumas autoridades se comportam feito cães de guarda vadios que, ao invés fiscalizar as empresas, ou mesmo enxotá-las, babam aos seus pés, lambem-nos e as protegem” (Claret)

Por Luciane Godinho

Claret Fernandes, 53 anos, mineiro de Presidente Bernardes, é escritor, militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana. Tem quatro livros publicados: Chegou o in(f)verno (crônicas), Viagem de Sophia (contos), O Cronista (romance) e Águas revoltas (poesia), todos de ficção, baseados na materialidade de suas vivências, junto das comunidades atingidas por barragens e do Movimento.

Desde 1993, antes mesmo de conhecer o MAB, ele já atuava junto das vítimas das barragens que iam surgindo na região. Claret estava em reunião com a coordenação do MAB em Belo Horizonte, quando recebeu a notícia do rompimento da barragem da Samarco (Vale/BHP Billiton), prontamente, toda coordenação se dirigiu para lá. “A população foi jogada no Parque de Exposições”, conta, “perdida - muitos nem sabiam da existência da Barragem Fundão, da Samarco, julgavam que era enchente.” “Aos poucos, foram percebendo que a Empresa era responsável”, diz. “Graças ao trabalho do MAB, as pessoas vão se conscientizando.”

Segundo Claret, a empresa adotou algumas medidas emergenciais, mas nada fez até agora de estrutural para os atingidos. “A Samarco não quer resolver, porque a solução será parâmetro para o mundo todo, e a garantia de direitos para o povo encareceria a exploração de minério”, afirmou.

Em 1 de outubro, como parte da programação do 8º Encontro Nacional do MAB, que acontece até o dia cinco, foi realizada uma missa em Aparecida (SP), em solidariedade às vítimas da Samarco. Já no dia 2, atingidos realizaram um ato de denúncia em frente à sede da Vale no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista:

MAB – Qual é a importância do Movimento junto às comunidades nas quais o senhor atua?

Claret - É fundamental. É um instrumento de organização do povo, que ajuda na busca dos direitos e organização política, no sentido próprio da palavra. Onde existe o Movimento, a possibilidade de conquista dos direitos é maior. Não há representatividade, é o próprio povo que se organiza e se torna Movimento, é a força popular.

MAB – O senhor costuma dizer que a tragédia de Mariana foi o ponto alto de inúmeras violações.

Claret – É um processo criminoso que culminou no dia cinco de novembro de 2015 - já era desde o início da exploração de minério.  Este foi sim o ponto alto da criminalidade, que continua impune. A Samarco, juntamente com os governos criou a Fundação Renova que tem a missão de resolver a situação das comunidades, ou seja, as vítimas estão sob os cuidados dos criminosos. Não se vê aí perspectivas de solução.

MAB - Como está hoje a situação das comunidades atingidas?

Claret – A Samarco fez algumas ações emergenciais, uma delas foi um cartão para que os atingidos pela tragédia recebam o valor mensal de um salário mínimo, que faz parte do plano de ajuda às famílias que a Empresa se comprometeu, junto ao Ministério Publico de Minas Gerais (MPMG). Ainda assim, muitos estão sem receber. Já as questões estruturais de assentamento das famílias, nada. Há jovens, deslocados para área urbana, que não querem voltar para a área rural – todo modo de vida foi alterado.  E, também, existe preconceito com relação aos atingidos.

MAB – Como estão os atingidos de Bento Rodrigues [comunidade destruída pela lama]?

Até hoje o que existe é terra e promessa de assentamento para as vítimas de Bento e Paracatu, a ser realizado até 2019. E, não basta reassentar. Isso tem que acontecer de forma que esta população tenha acesso aos serviços essenciais, às políticas públicas, com garantias individuais e estrutura coletiva. Eles perderam tudo, do que vão viver?

MAB – E a Fundação Renova [contratada pela Samarco para fazer o tratamento com os atingidos] como se insere neste episódio?

Claret - Oferece dinheiro, por exemplo, para a Universidade Federal de Viçosa, para estudos de recuperação de fontes, de forma que passe uma imagem positiva, o que amortece a resistência e crítica. Gasta dinheiro em estudos, mas não investe para reestruturar a vida dos atingidos. A Samarco não quer resolver, porque a solução será parâmetro para o mundo todo, e a garantia de direitos para o povo encareceria a exploração de minério.

MAB – O que o MAB de Minas Gerais têm feito?

Claret – Várias ações. Primeiro, organização dos grupos de base, assim como buscar parcerias para diagnósticos de confiança dos atingidos para nos basearmos - não naqueles que a Saramaco faz. Estamos articulados com o Ministério Público e com a Igreja Católica. O Bispo Dom Geraldo tomou a postura, desde o início, de parceiro do MAB. O mais importante é o povo estar organizado.