“Sou mulher, sou atingida e a Samarco não vai me calar”.

Durante o seminário Balanço de 2 anos do rompimento da barragem de Fundão, a pescadora Regiane Soares manifestou sua indignação em relação aos descaso da Fundação Renova com as mulheres atingidas.

Desde o rompimento da barragem de rejeitos de minério da Samarco (Vale/BHP Billiton), a população ribeirinha do munícipio de Baixo Guandu no Espirito Santo vêm sofrendo  grandes impactos decorrentes da lama tóxica que foi despejada ao longo da Bacia do Rio Doce. Além de não terem mais acesso direto ao rio, muitas famílias perderam a renda que era conquista por meio da pesca profissional e artesanal.

O município já havia sido atingido pela Usina Hidrelétrica de Mascarenhas construído no Rio Doce na década 70, quando ainda não eram necessários estudos prévios de impacto ambiental e social. A barragem impactou diretamente a fauna e flora do rio.

Além de ter enfrentado as consequências desta obra, a pescadora Regiane Soares, convive com a indignação pela impunidade do crime passado dois anos do rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG) e pelo descaso das mineradoras com as mulheres atingidas.

“O preconceito que a empresa tem em relação às mulheres é um absurdo. No processo de indenização quase 70% da minha comunidade foi cadastrada sendo que na sua maioria são homens, pois nós somos discriminadas do processo. As mulheres não são ouvidas, quando reconhecida é em um valor menor nas indenizações”.

Ao longo de toda a bacia do rio Doce, os atingidos têm se mobilizado na denúncia dos impactos continuados do crime, formando se organizando em busca da garantia dos direitos. As empresas, por meio da fundação Renova, conduzem as negociações até o limite, a fim de provocar conflitos entre as comunidades atingidas.

“Eu sou mulher, sou atingida e a Samarco não vai me calar. A gente cria os filhos hoje para o capital porque eles não poderão seguir o mesmo modo de vida que os pais tiveram, porque essas mineradoras acabaram com o rio que era nosso sustento”.  

Através da luta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) a pescadora Regiane conseguiu se enxergar como atingida e juntamente com outras famílias da Bacia do Rio Doce, constroem a organização coletiva da população ribeirinha e identificando as principais consequências vivenciadas depois do crime.

“O rio era a extensão e parte do povo, fonte de renda e sustento, ponto de encontro de lazer para a família, e elo central de uma cultura construída historicamente na região, e que hoje, o povo não se encontra mais, e é obrigado a tratar a questão em caixinhas de problemas chamadas ‘programas’ inventadas pela fundação como forma de facilitar o seu trabalho e desconsiderar parte importante dos direitos, materiais e imateriais”. Finalizou a pescadora.