A tragédia 20 meses depois: nenhum tijolo no reassentamento de Gesteira

Samarco e Fundação Renova atuam dividindo e negando direitos. Atingidos buscam se organizar e construir protagonismo.

                                                                Foto: Leandro Taques

Os escombros não deixam a memória descansar. Andar por onde um dia foi a comunidade de Gesteira, povoado da cidade de Barra Longa, traz à tona toda a experiência traumática da noite de 5 para o dia 6 de novembro de 2015. A avalanche de lama que desceu do complexo da Samarco Mineração S.A (Vale e BHP Billinton) avançou mais de 50km após o rompimento de Fundão, mas chegou com imenso volume provocando destruição inimaginável.

Maria das Graças é moradora do Mutirão, parte do povoado de Gesteira, município de Barra Longa, que fica em uma porção mais alta em relação ao rio Gualaxo do Norte. Não teve casa nem quintal destruído, mas morando no alto do morro, contemplou da janela de casa toda a destruição causada pela lama. “Quando o rejeito chegou foi uma destruição total. A gente ficou na escuridão, faltou luz, não sabíamos o que realmente estava acontecendo. Mas, no dia seguinte, vimos a destruição. Foi um amanhecer terrível. O rejeito destruiu tudo, as casas, com tudo que tinha. Além da nossa igreja, do campo, do salão comunitário, tudo. Ficamos 11 dias isolados”, conta a atingida, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Tudo está debaixo de lama. Nove casas destruídas, uma escola municipal, campo de futebol, a igreja Nossa Senhora da Conceição e os espaços comunitários. Além de estruturas, soterrou 11 lotes com variados tamanhos na beira do rio Gualaxo do Norte que eram cultivados em uma agricultura para autoconsumo.

Os moradores que perderam suas casas estão espalhados entre Gesteira, Barra Longa e Mariana. E as famílias que vivem na comunidade do Mutirão estão sem espaço de plantio de alimentos saudáveis. Agora, além de não terem a produção, comprometem a renda mensal com a compra de alimentos que antes produziam, perderam a qualidade da alimentação e a atividade diária que também era fonte de saúde física e mental para os donos, na maioria, idosos.

Hoje, convivem na ociosidade, na preocupação com o futuro e na indignação com o descaso das mineradoras. Ninguém foi indenizado, a grande maioria sequer recebeu o cartão subsistência e o reassentamento, direito fundamental das famílias, não avançou.

Samarco atua para não fazer o reassentamento

Como parte do seu plano de reparação, a Samarco prometeu reassentar todas as famílias. Do mesmo modo como ocorreu em Mariana, em função da destruição de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, a empresa colocou em votação dois terrenos escolhidos pelos moradores para realizar o reassentamento. Fez estudos, apresentou resultados, alimentou a expectativa e criou nos atingidos a confiança de que a situação seria resolvida. Nesse sentido, realizou, no dia 25 de junho de 2016, uma votação na qual 95% dos votantes escolheram o terreno chamado de “Macacos”.

Mas, infelizmente o que se viu nos meses seguintes foi a destruição da expectativa e dos sonhos das famílias conduzindo a situação para um processo de negação do reassentamento quando deveriam cumprir o que havia sido acordado. Durante todo o segundo semestre de 2016, a empresa não apresentou uma definição sobre a compra do terreno. Em suas inúmeras reuniões com as famílias, coordenadas por suas consultorias, a mineradora afirmava, simplesmente, que estavam prosseguindo com as negociações.

Mas o que se viu foi o crescimento de um desentendimento público entre os proprietários e as mineradoras, cujas razões não eram claras. Esse fato marca um comportamento desigual da empresa nos seus processos de negociação, já que no caso do Dique S4, em Bento Rodrigues, apesar da negativa da maioria dos proprietários, a empresa conseguiu um decreto do governador Fernando Pimentel autorizando o uso do imóvel, sob o argumento de interesse social. Por que a empresa não utilizou da mesma política de negociação quando o que estava em questão era a garantia de terra e moradia para as famílias vítimas deste crime?

Vinte meses depois do crime, nenhum tijolo foi colocado nas obras do reassentamento e o acordo atual entre atingidos e proprietários é que quando a Assessoria Técnica da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS) começar os trabalhos, o que está previsto ainda para o mês de julho, novos estudos serão feitos para pressionar a Samarco a comprar o terreno.

Direitos são negados, mas a organização popular se fortalece

A indignação das famílias de Gesteira está se transformando em organização. A Assessoria Técnica é aguardada com ansiedade pelas famílias. “Nosso trabalho junto aos atingidos tem sido no sentido de levar informação e construir protagonismo a partir dos argumentos construídos de forma coletiva. A atuação da AEDAS, que para começar só espera a homologação do juiz da 12ª Vara Federal, vai ser um instrumento de luta a serviço das famílias que estão sendo ‘enrolados’ pela Samarco e o seu novo instrumento, a Fundação Renova”, comenta Thiago Alves, militante do MAB.

Outro esforço do MAB é tornar os atingidos sujeitos também na luta política por direitos e democracia em tempos de golpe. “Além disto, estamos no esforço de envolver os atingidos pela Samarco das mobilizações e lutas gerais da classe trabalhadora. Isto permite um salto de qualidade na compreensão da nossa tarefa histórica e da amplitude da luta, além de dar mais energia”, comenta.

Maria das Graças foi uma das atingidas presentes no ato da Greve Geral no último dia 30 de junho realizado na Praça de Palmeiras, em Ponte Nova. É nesta cidade que passa o rio Piranga que, ao encontrar-se com o rio Carmo sujo de lama, torna-se rio Doce que segue manchado até foz, em Regência.

Ela emocionou os manifestantes ao fazer a denúncia e um apelo à mineradora. “Estamos aqui à procura de nossos direitos iguais. Quero deixar aqui um apelo para a Samarco que quando a lama veio ela atingiu todas as famílias e agora muitas famílias estão sendo ‘beneficiadas’ enquanto muitas outras sequer foram reconhecidas”.

E continuou: “Muitas pessoas estão sofrendo pela saúde, por falta de moradia, falta de plantio, o terrenos que as famílias tinham para plantar estão ainda sujos de lama, além das casas aterradas na lama do jeito que passou. Nós somos famílias, somos comunidade. Então pedimos a Samarco que olhe com mais atenção para estas famílias”, afirmou.

“Vinte meses depois o que vemos é isto: a Samarco, por meio da Fundação Renova, se apoia na publicidade, promove a divisão, fomenta a desinformação, atua ‘empurrando os problemas com a barriga’ ao mesmo tempo em que trabalha impedindo a autonomia organizativa das famílias. Esta não é nossa opinião, é nossa experiência em todo este tempo de trabalho”, conclui Thiago Alves.